Sabes de Mim, Agora Esqueça (Brasil, 2026)
Título Original: Sabes de Mim, Agora Esqueça
Direção: Denise Vieira
Roteiro: Denise Vieira
Elenco principal: Pietra Sousa, Cida Souza, Aysha Layon, Erica Mailane, Tainá Cary, Sanara Medeiros, Laura Ferreira, Jirlene Pascoal e Denize Passos
Duração: 96 minutos
Quando pensamos em diferentes contextos e formatos, a prostituição, ou seja, troca de sexo por dinheiro ou por outros serviços, é uma atividade bastante antiga, datando pelo menos desde a Grécia Antiga. Isso dá a base para todo o país distópico imaginado por Denise Vieira, no qual prostitutas são perseguidas por homens chamados de Lanternas devido a um código moral conservador. Neste contexto, seguimos a vida de uma prostituta, Rubia, interpretada por Pietra Sousa que está em fuga, embora não saibamos os detalhes de suas origens ou do lugar no qual ela busca chegar.

Um dos princípios que parece reger o filme é o do contraste entre o público e o privado, algo que esteve bastante em voga em momentos em que o país esteve sob domínio de uma extrema direita que se colocava como conservadora em costumes, mas que quando olhada com atenção tinha os mesmos comportamentos humanos de toda a população. A perseguição que no filme está no contexto de prostituição esteve presente para tudo o que foge da defendida “família tradicional brasileira”. Mas, como sempre, no âmbito privado as pessoas simplesmente seguem com as suas vidas, simplesmente marginalizando ainda mais as pessoas que já estão em alguma vulnerabilidade social.
Seguindo no roteiro da obra, após uma cena inicial cheia de tensão na qual vemos apenas essas mulheres em fuga, tentando subir em um trem enquanto são perseguidas, logo também somos apresentadas à solidariedade representada por Margô (Jirlene Pascoal), dona do bordel que acolhe Rubia. Novamente, a rua é colocada como um espaço perigoso, enquanto o bordel, o espaço privado, a família construída, é a segurança. E aqui, o filme novamente acerta ao colocar diversas representações do feminino presentes. Corpos, cis, trans, brancos, negros, jovens, velhos, gordos e magros. Com o feminino como grande ligação entre eles, esse espaço quase sagrado de compartilhamento de experiências coloca a palavra sororidade como seguida à risca.
Além disso, também existe um grande cuidado em colocar essas mulheres como agentes de suas próprias sexualidades, evitando cair em estereótipos conservadores sobre a prostituição. Através de suas conversas, conseguimos compreender o quanto o sexo ali praticado é consensual, sendo às vezes simplesmente mais chegado aos seus gostos pessoais do que em outros momentos. Há uma mistura entre a linguagem naturalista e essa aproximação quase documental das conversas com um cenário muito bem planejado e criado para mostrar uma distopia, que torna o filme inesquecível tanto em discurso quanto em imagem.
Acrescenta-se mais uma camada ao colocar o bordel como esse espaço de experimentação para todos, inclusive homens, evitando o discurso que ignora ou abomina o masculino, sendo que dentro do contexto do filme homens são essenciais para que as personagens exerçam suas sexualidades. Entre possibilidades de se entregar aos fetiches sexuais e até a possibilidade de perseguir um objetivo romântico, é dentro da permissão e acolhimento que tudo se torna possível. É claro, há uma diferença entre o homem que adentra este espaço e aquele que está fora dele, perseguindo essas pessoas. Mas eles também recebem rostos, histórias e características, não sendo apenas esses fantoches do desejo feminino.
Tudo isso funciona com ajuda de uma direção de fotografia que consegue causar as sensações corretas nos espectadores nos momentos adequados. Ela consegue se manter mais naturalista nos momentos colocados como quase documentais, enquanto cria a confusão arquitetônica necessária para que esse espaço nos pareça protegido do mundo externo. Isso se soma a uma montagem primorosa, visível principalmente na cena em que diversos casais transando são colocados em justaposição, lembrando o quanto o gozo é uma linguagem quase universal.
É muito feliz ver uma narrativa que coloca o prazer em seu centro de funcionamento e não tem nenhum problema com suas próprias escolhas, sendo capaz de se sustentar sem pedidos de desculpas aos espectadores por lidar com questões tão inerentemente humanas.




