Crítica | 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes | Meu Tio da Câmera

Meu Tio da Câmera (Brasil, 2026)

Título Original: Meu Tio da Câmera
Direção: Bernard Lessa
Roteiro: Bernard Lessa
Duração: 71 minutos

Aviso: esta crítica possui spoilers significativos sobre a obra.

Saindo um pouco do campo de uma crítica em terceira pessoa, eu gostaria de contar ao meu leitor um pequeno conto sobre a minha vida. Meu pai morreu de Covid no início de 2021, na mesma semana em que as primeiras doses de vacina estavam sendo dadas no Brasil, após a recusa do governo de Jair Bolsonaro em comprar o imunizante mais cedo. Coincidentemente, meu pai era apoiador desse governo e nos seus pertences devolvidos pelo hospital após o falecimento estava a ivermectina, remédio ineficiente que o mesmo afirmava estar no tratamento precoce contra a doença.

Como acontece após a morte de qualquer pessoa, minha família passou por um período de revisão de roupas, objetos pessoais e memórias. E entre esses objetos, eu encontrei um bilhete enviado do meu pai para a minha mãe exatamente na virada de 1999 para 2000, falando sobre as esperanças para esse novo milênio e sua alegria em uma vida de casado – algo que eu, como filha, nunca fui muito capaz de enxergar em suas atitudes. Desde aquele momento, no início de 2021, existe uma pergunta que não sai da minha cabeça: o que é que deu errado para o meu pai se entregar ao proto-fascismo bolsonarista?

Essa parece ser a mesma questão que se passa na cabeça de Bernard Lessa ao realizar Meu Tio da Câmera. No seu caso, com acesso a um acervo enorme de fitas VHS de seu tio Paulo Henriques, ele cria uma narrativa peculiar de apresentar toda a sua família, mostrar muitos de seus momentos clássicos de uma família nos anos 1990 e, quase ao final do filme, apresentar um cenário parecido com o do meu pai que, quase de repente, se torna bolsonarista.

Quase como se ele fosse capaz de ler meus pensamentos em relação a este questionamento, ele busca nessas imagens as raízes do que somente mais tarde se expressaria politicamente no tio. Mas a grande questão do filme está justamente em como ele apresenta esses fatos para o público, primeiro mostrando toda uma vida relativamente normal, com o machismo estrutural básico dos anos 1990 presentes, e nos fazendo gostar dessa figura carismática do tio para quase no final nos apresentar o fato desse bolsonarismo. Isso causa a impressão de que ele quer trazer uma versão quase neutra do seu familiar para aproximar de quem vê, quase como quem relembra que todas as pessoas têm uma história de vida prévia, qualidades e defeitos, e não estão limitadas à faceta política.

Mas o que parece ser esquecido aqui é que o filme contém dois vieses. O primeiro e mais claro é o do diretor e da montadora, que cientes do material que possuem, organizam como contar essa história e escolhem por não fazê-lo cronologicamente, mas sim através de idas e vindas no tempo a partir de pequenos recortes temáticos. O que ele não se mostra tão consciente é do recorte de seu tio, que foi quem escolheu quais partes de sua vida registrar em vídeo. Ao nos apresentar um personagem através de diversos momentos do dia a dia, ele dá a impressão de que acabamos conhecendo profundamente aquela pessoa, sendo que obviamente, conhecemos apenas um recorte dentro daquilo que ela mesma escolheu registrar.

O filme se perde um pouco em tentar apresentar uma tese específica sobre aquela pessoa ao invés de aproveitar o que ele tem de melhor, que é um acervo enorme do cotidiano e da vivência dessa família “tradicional brasileira”. Não há espaço para entendermos as suas contradições por ser um material previamente gravado e preservado por uma pessoa, e sem um tema para compreendermos as imagens, ficamos restritos à discussão sobre o bolsonarismo – um questionamento válido, mas que infelizmente não será respondido por um filme.

Adiciona-se mais um fato quando, na conversa após o filme, o diretor diz ter apresentado o filme ao próprio tio e ele ter compreendido esse material como um filme-homenagem. Isso cria até um questionamento sobre o uso dessas imagens quando o seu personagem principal se mostra alheio aos seus significados. A sua resposta pode até ser sintomática de uma busca por sentido na vida desses homens que, como meu pai, sentiram a queda de alguns de seus privilégios com a virada do milênio, mas também indica uma incapacidade de compreensão de como sua imagem está sendo utilizada.

É interessante que o filme tenha sido apresentado logo após Sabes de Mim, Agora Esqueça, que tem um ponto de vista tão claro sobre sua forma e conteúdo, e tão oposto em tema ao que é aqui apresentado. 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima