In a Whisper (França e Tunísia, 2026)
Título Original: À voix basse
Direção: Leyla Bouzid
Roteiro: Leyla Bouzid
Elenco principal: Marion Barbeau, Hiam Abbass, Eya Bouteraa, Feriel Chamari
Duração: 113 minutos
Existem obras que te atingem de maneiras inesperadas. E a minha relação com In a Whisper foi tão intensa quanto inesperada.
Na obra, acompanhamos Lilia (Eya Bouteraa) em um retorno à sua terra natal, a Tunísia, para o funeral de seu tio Daly. Seu início é bastante focado nesse momento de um retorno dessa mulher à sua família e às suas origens, mas nós como espectadores sabemos que ela tem uma namorada que está escondida em um hotel por perto, o que nos gera certa tensão dado o famoso conservadorismo árabe. Temos então essa primeira camada da obra focada em mostrar as paisagens locais, os ritos de funeral, o funcionamento daquela família. Aqui, como uma pessoa de descendência árabe, já comecei uma conexão muito maior do que a imaginada com o filme à minha frente. Parecia que eu conseguia ver em tela um pouco de mim mesma: os tapetes persas da casa das minhas avós,a obrigatoriedade de servir um café para todas as pessoas que chegam na casa, a separação entre o mundo das crianças e dos adultos, das mulheres e dos homens. Talvez pela erosão normal que acontece quando as gerações de uma família imigrante vão se acomodando a um novo país, senti uma espécie de nostalgia profunda.

Mas então a obra se desdobra em seu real sentido. A morte de Daly aconteceu sob circunstâncias suspeitas, que a família inclusive se recusa a comentar. Lilia começa a ver muito de seu próprio comportamento na presença e na ausência do tio, e começa sua investigação particular para descobrir mais sobre essa figura doce de sua infância e que foi se tornando um desconhecido na medida em que ela crescia. Nesse contexto, ela começa a entender como a homofobia que no país é fundamentada por lei tem seus desdobramentos dentro de sua própria casa – e isso lhe gera uma crise pessoal.
O que impressiona na obra é a maneira sensível com que tudo é conduzido, deixando claro o seu posicionamento político sem tentar pintar uma situação que fuja completamente da realidade. A diretora consegue incluir diversos temas dentro dessa narrativa, que vão do colonialismo europeu no Norte da África até a falta de privacidade que uma pessoa tem em sua morte, mas tudo isso é colocado de forma orgânica na narrativa, sem a necessidade de se explicar excessivamente. Muitas das informações nos são apresentadas aos poucos, para criarmos a nossa própria visão sobre o que irá se desdobrar em tela.
Isso é acompanhado por uma montagem bastante preocupada em passar sua mensagem sobre a interferência do passado no presente e como esses ciclos familiares se repetem e podem ser quebrados, também tocando no assunto do trauma geracional. Desde os momentos em que se escolhe colocar os fantasmas do passado presentes em cena com os personagens do presente até um momento de uma montagem focada em fotografias que é extremamente tocante para uma pessoa LGBT, percebe-se a preocupação em mostrar um sentimentalismo contido, assim como são todas as emoções dentro dessa família. Mesmo que às vezes se beire o melodramático nessa representação, uma vez que se compra a ideia geral da obra, é impossível não embarcar nessa jornada quase espiritual com as personagens.
É estranho como uma mulher brasileira pode se sentir tão representada por uma obra tunisiana – mas é exatamente aqui que está a magia do cinema. A arte nos ajuda a entender melhor o mundo e, mais especificamente, nós mesmos. E, às vezes, assistir a um filme também pode ser uma forma de cura com os fantasmas do seu próprio passado.




