Crítica | 76º Festival de Berlim | Dao

Dao (França, Senegal e Guiné-Bissau, 2026)

Título Original: Dao
Direção: Alain Gomis
Roteiro: Alain Gomis
Elenco principal: Katy Correa, Fara Bako, Béatrice Mendy, Mike Etienne e Poundo Gomis
Duração: 185 minutos

O início do filme já traz a citação: “Dao é um movimento perpétuo e circular que flui em tudo e que conecta o mundo”. E, por incrível que pareça, essa definição extremamente abrangente será um bom resumo da obra de mais de três horas que se desdobrará nas salas de cinema.

Como uma espectadora brasileira, é impossível não fazer ligações da obra com duas questões bastante particulares da nossa cultura. A primeira delas é a proximidade que essa obra tem do saudoso documentarista Eduardo Coutinho, principalmente em sua famosa obra Jogo de Cena. Ainda que a comparação seja óbvia, é difícil não enxergar no convite que Alain Gomis faz aos seus atores (profissionais e não profissionais) de reinterpretar as histórias as quais são apresentados como algo semelhante ao que é proposto com Coutinho, que convida atrizes para reinterpretar histórias de mulheres que responderam a um anúncio e contaram, em estúdio, a história de suas próprias vidas. Mesmo que muitos outros diretores tenham utilizado recursos que borram as barreiras entre o que é ficção e o que é documental, o filme parece ser uma referência para o diretor franco-senegalês criar o universo de sua obra.

A segunda questão é observar como, apesar de termos um sincretismo religioso bastante presente e que tornou esse processo de rituais presentes na obra algo relativamente comum na vida do brasileiro, independentemente de sua religião – afinal, quem nunca pulou sete ondas no ano novo ou esfregou a barriga de um Buda? -, a maior parte de seus significados foi esvaziada pelo cristianismo. É interessante observar, por esse viés mais contemporâneo, como algumas das mesmas religiosidades que estão presentes no nosso dia-a-dia evoluíram no Senegal.

O filme acaba sendo uma aula sobre o quão eurocêntrico é o nosso olhar, principalmente quando estamos falando sobre o modo de assistir o filme. Desde o conceito de tempo que costumamos utilizar, muito mais cronológico do que sentido, até conforme o uso da oralidade para transmissão de pensamentos e conhecimentos, seguimos muito focados em uma única maneira de contar histórias. Quando nos deparamos com um cinema que foge a essa forma, como é o caso de Dao, acontecem situações como a saída de muitas pessoas durante a sessão do filme, com essas pessoas não aceitando nem ao mesmo compreender a maneira proposta que a obra nos traz.

Além de trazer toda essa forma específica que dialoga com os conceitos que o filme está perpetuando, existe uma questão rítmica e ritualística do longa-metragem que não pode ser desconsiderada. Por não sermos apresentados às informações de maneira didática, passamos uma boa parte do filme desvendando os seus signos, além de tentarmos compreender quais partes daquela narrativa são mais documentais e quais são totalmente ficcionais. É, novamente, uma maneira de se relacionar com o cinema que não estamos muito acostumados, mas que funciona perfeitamente bem com as imagens hipnotizantes que nos são mostradas.

Dao se torna um ponto fora da curva, uma pequena pérola em uma programação que ainda se centra em um cinema mais específico. É excelente que um filme como ele esteja em competição e possa ser apresentado a um público mais abrangente.

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