Nightborn (Finlândia, Lituânia, França e Reino Unido, 2026)
Título Original: Yön lapsi
Direção: Hanna Bergholm
Roteiro: Hanna Bergholm, Ilja Rautsi
Elenco principal: Seidi Haarla, Rupert Grint, Klaara Höglund, Pamela Tola, Pirkko Saisio
Duração: 1h32min (92 minutos)
É difícil encontrar uma cena mais assustadora para um millenial do que um casal branco heterossexual dançando ao redor de sua propriedade enquanto fala sobre seu desejo de ter três filhos. Tudo bem, a propriedade em questão é uma casa quase abandonada que a avó da protagonista Saga (Seidi Haarla) deixou como herança familiar, e precisa de uma boa dose de reformas. Mas nada prepara o espectador pouco conhecedor das tradições finlandesas para qual será o horror específico do filme.

Para quem chega ao filme com um olhar atento, a própria escolha de nomes dos protagonistas é bem significativa. De um lado, temos a mulher que em breve se tornará mãe, Saga, nome dado à formalização escrita dos antigos contos orais finlandeses. Pelo outro, temos John (Rupert Grint), nome bíblico associado a um dos apóstolos de Jesus Cristo, cujos textos falam sobre milagres de ressurreição (Lázaro e o próprio Cristo). Ou seja, já temos uma dica de quais serão os caminhos a ser percorridos pelos personagens, com Saga trazendo um conhecimento mais ancestral e ligado aos elementos da natureza enquanto John vai representar essa sociedade moderna com normas mais específicas sobre como é ter um filho.
Apesar de algumas sequências já batidas no gênero, como a gravidez monstruosa que parte de uma cena de orgasmo diretamente para os gritos das dores do parto, a obra consegue se manter original justamente pela falta de outros filmes que lidem com esse folclore específico. Como a maior parte do público, mesmo que acostumado com o folk horror, não é familiar com as crenças específicas do país, isso gera um interesse dos aficionados pelo cinema de horror.
Mas, ao mesmo tempo em que gera uma empolgação inicial, a obra tem dificuldades em conseguir manter esse interesse do público, principalmente por não trazer muitas novidades em relação a essa trama de uma gestação monstruosa. Temos esses primeiros momentos nos quais a incerteza sobre a criança paira, e como Hanna Bergholm já provou em seu filme de estreia, Ninho do Mal, ela consegue trabalhar muito bem com a subjetividade. Conforme isso avança para um caminho mais direto, parece haver cada vez menos inventividade. As forças comuns como a opressão do esposo, dificuldades familiares e o literal horror físico deixam pouco para a imaginação.
Ainda nesse sentido, após uma grande leva de filmes que lidam com a maternidade através de diversos pontos de vista que foram exibidos no festival em 2024 e 2025, aqui parece haver até um certo conservadorismo sobre a relação entre a mãe e sua cria, de martírio e sofrimento que não consegue romper o trauma geracional, que segue incomodando mesmo após o final do longa.
Assim, mesmo que o filme seja divertido de assistir, ele infelizmente não consegue se desenvolver muito para além de um terror folclórico específico e que coloca o martírio feminino no centro da tela. Ao menos ele é bastante honesto quanto às suas intenções e não vende ao público uma complexidade além daquela que possui.




