Crítica | 76º Festival de Berlim | Nosso Segredo

Nosso Segredo (Brasil e Portugal, 2026)

Título Original: Nosso Segredo
Direção: Grace Passô
Roteiro: Grace Passô (inspirado na peça “Amores Surdos”)
Elenco principal: Ju Colombo, Jéssica Gaspar, Efraim Santos, Robert Frank, Flip, Marisa Revert, Juan Queiroz
Duração: 108 minutos

Não há dúvidas de que existe uma sub-representação de pessoas negras dentro da história do cinema nacional, ainda mais quando se pensa em narrativas de drama. Ao mesmo tempo, para qualquer pessoa atenta às artes nacionais, também é raro que o nome de Grace Passô seja desconhecido, seja por seu trabalho no teatro, no cinema como atriz ou, mais recentemente, também como diretora. Em seu primeiro longa-metragem, Nosso Segredo, ela consegue ainda trazer o elemento do fantástico para contar uma história sobre o luto familiar.

Após a morte de um membro de uma família, todos os seus membros precisam lidar com o luto, e é comum que cada indivíduo faça isso de uma maneira, que nem sempre está conectada com a forma que as outras pessoas estão presenciando essa ausência. Particularmente, no filme, temos Suely (Ju Colombo), a mãe enviuvada que se encontra quase catatônica, incapaz de se comunicar com a família, e seus três filhos Grazi (Jéssica Gaspar), Guto (Flip) e Tutu (Efraim Santos), cada um lidando com o falecimento do pai à sua maneira. A obra faz um ótimo trabalho em transmitir a experiência do luto para a forma fílmica, e isso acontece por alguns motivos.

O primeiro deles é o uso da casa onde todas essas pessoas vivem como espaço, ao mesmo tempo, da convivência e das ausências. Mesmo quando todos estão neste mesmo espaço físico, é perceptível como cada um tem suas próprias introspecções e até mesmo sua separação em espaços menores para conseguir lidar com suas questões. Isso se junta ao elemento fantástico do filme, principalmente incorporado pela presença de Pretinha, uma figura misteriosa no sótão com a qual apenas Tutu consegue se comunicar. Mas além dessa figura fantasmagórica, também há rachaduras e a lama que vão surgindo nas paredes e que falam muito mais sobre o clima interpessoal do que sobre o estado físico daquele lugar. Isso se soma ao último elemento, que é a família fragmentada, que aparece no geral em enquadramentos mais individualizados do que em planos do grupo. Conseguimos acompanhar tecnicamente essa jornada de repensar o que será essa família existente na ausência.

Algo interessante é que, apesar de ter esse elemento fantástico forte, o filme não se entrega para um universo tão onírico. Ele lida muito mais com o lirismo da realidade e com as faltas de contrastes que nos encontramos em situações de luto ou depressão. Isso já vem anunciado quando o filme apresenta o seu título: “Nosso Segredo” aparece em cima de uma tela preta, escrito com uma fonte cinza escura. Isso já indica tanto o quanto o filme estará falando sobre um recorte de raça, sobre o motivo do luto e sobre o modo de criar a narrativa, através de momentos de opacidade existencial.

Se Grace Passô já mostrou todo o seu talento nas diferentes áreas nas quais atuou, a direção cinematográfica se mostra mais uma delas. Com sensibilidade e consciência, ela cria uma bela narrativa sobre as dificuldades de sobreviver quando se perde uma referência em sua vida.

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