Crítica | 76º Festival de Berlim | Dust

Dust (Bélgica, Polônia, Grécia, Reino Unido, 2026)

Título Original: Dust
Direção: Anke Blondé
Roteiro: Angelo Tijssens
Elenco principal: Arieh Worthalter, Jan Hammenecker, Thibaud Dooms, Fania Sorel e Anthony Welsh
Duração: 115 minutos

“Nada é completamente verdade, e nem mesmo isso”. É com essa frase de Multatuli que se inicia Dust, filme belga sobre fraudes financeiras no final do século XX. Se a proposta parece empolgante durante seus primeiros 15 minutos, o longa-metragem infelizmente pode ser tudo, menos empolgante.

Começamos o filme com uma dupla, Geert (Arieh Worthalter) e Luc (Jan Hammenecker) apresentando para uma plateia a sua tecnologia, um programa capaz de compreender comandos de voz e auxiliar na produção de documentos. Importante lembrar que ele se passa nos anos 1990, muito antes da onipresença de assistentes de voz e inteligências artificiais capazes de completar nossos pensamentos. Então, logo após a apresentação, percebemos o seu nervosismo quando eles vão ao banheiro. Mais do que isso, neste momento eles se deparam com uma informação que nos explica qual será a reviravolta do filme: em breve, todos saberão que eles na verdade são fraudadores financeiros cheios de empresas fantasma e que conseguiram acumular uma grande riqueza na base de golpes. O que se segue a isso são eles sofrendo as consequências diretas dessa informação, ou seja, estudando suas possibilidades além de se entregar para a polícia e deixando sua vida e despedidas em ordem para o caso de encarceramento.

Sem muito contexto sobre a sociedade belga ou até mesmo sobre o seu sistema jurídico, o filme tenta mergulhar um pouco na vida desses personagens e em suas diversas facetas. Além das contradições internas, eles também são apresentados como membros de famílias, amigos, amantes ou cuidadores de seus entes queridos. A grande questão é que temos uma noção tão clara de que é isso que a obra está tentando fazer, que é difícil se conectar com os fatos e a história, apenas pensando no estilo de vida apresentado por eles. Não há a apresentação de pormenores ou justificativas para os crimes, então é pesaroso apenas acompanhar as suas desventuras nessas horas que lhes restam de liberdade.

Mais do que isso, o filme sofre estruturalmente com uma falta de contrastes narrativos ou de altos e baixos que possam torná-lo mais interessante. Há um ritmo muito irregular entre as cenas, fazendo com que seja complexo seguir a sua linha de pensamento. Até mesmo as metáforas que são utilizadas, como a sujeira que se acumula na camisa de um dos parceiros ou o carro que acaba atolado na lama, são tão óbvias e sem pormenores que não se passa muito tempo pensando na obra após o seu final.

É até incomum que um filme com uma boa premissa, um roteirista de sucesso e atores que conseguem trazer uma performance humanista seja tão inócuo. Talvez esta até seja uma resposta belga ao estereótipo de que eles têm barreiras muito elevadas para deixar com que pessoas entrem em suas vidas, sejam muito fechados, mas neste caso, para quem está de fora da cultura, se torna difícil compreender quais são as intenções da obra.

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