Rose (Áustria, Alemanha, 2026)
Título Original: Rose
Direção: Markus Schleinzer
Roteiro: Markus Schleinzer, Alexander Brom
Elenco principal: Sandra Hüller, Caro Braun, Marisa Growaldt
Duração: 93 minutos
Em um cenário global no qual as discussões sobre gênero estão tão presentes, é até triste que um filme como Rose ainda seja tão relevante, com seu cenário dos anos 1600 na Alemanha. Nele, Rose (Sandra Hüller) é um soldado que aparece em uma pequena vila com seu certificado de terra após o final da guerra. Ainda que haja um estranhamento inicial dos locais em relação à sua identidade, ao longo do tempo ele ganha a confiança de todos a partir de trabalho duro e muito foco na religião. O único detalhe, contado para o público nas primeiras cenas a partir de uma narração em off, é que Rose é uma mulher que se passou por homem durante toda a vida, e que pretende seguir com esse disfarce.

Isso gera situações de humor peculiar ao longo da narrativa, como quando sua esposa, Suzanna (Caro Braun) engravida de Rose. Mas por mais que o público siga interessado e pensando nos pormenores da vida da protagonista, infelizmente já temos uma referência histórica do que poderia acontecer. A figura de Joana D’Arc é uma referência impossível de ignorar, e seguimos por todo o longa metragem esperando o momento em que o martírio dessa personagem chegue a um ápice trágico.
Essa noção não é reafirmada pelas escolhas estéticas e narrativas da obra. Começando por sua narração, que consegue encontrar equilíbrio sem parecer excessiva, já remete ao cinema clássico que consagrou A Paixão de Joana D’arc (La passion de Jeanne d’Arc, 1928), assim como a escolha pela filmagem em preto e branco, que ao mesmo tempo que realiza essa evocação também nos lembra que este é um filme com desenrolar em um passado distante. Por fim, também há uma atuação naturalista e que foca nas expressões dos personagens, assim como a sua jornada como um “cidadão exemplar”. Se Joana foi uma excelente guerreira, Rose foi simplesmente uma boa pessoa para aquela comunidade.
A maior questão que isso levanta é se ainda faz sentido, neste momento do mundo, seguir com o caminho da tragédia para o encerramento do longa. Infelizmente, já temos exemplos suficientes de mulheres que se passaram por homens e tiveram finais trágicos, seja na história do cinema ou na vida real. É claro que, em sociedades altamente patriarcais e machistas, mulheres com menos a perder irão assumir esses papeis mesmo quando não necessariamente tenham uma questão de identidade de gênero envolvida, simplesmente pelo fato da diferença de tratamento e de direitos perante a lei. Ver isso novamente nas telas grandes, e novamente levando a uma trajetória tão triste e pesada é uma escolha que lembra o quanto a história recente da humanidade está ligada ao martírio feminino, mas também causa a sensação de que não existem outras possibilidades de representação feminina nas telas. Nem ao mesmo se tornando o mais ideal dos cidadãos, existe a paz para a mulher.
Felizmente, para esse longa-metragem, a atuação extremamente carismática de Sandra Hüller, somada a uma caracterização específica e ao ritmo conciso fazem com que, novamente, o público se emocione e se revolte com a história. Mas segue o desejo de conseguir ver outras representações desse tipo de narrativa tão comum na história do cinema.




