Crítica | 76º Festival de Berlim | The Loneliest Man in Town

The Loneliest Man in Town (Áustria, 2026)

​Título Original: The Loneliest Man in Town
Direção: Tizza Covi e Rainer Frimmel
Roteiro: Tizza Covi
Elenco principal: Al Cook (Alois Koch), Alfred Blechinger, Brigitte Meduna e Flurina Schneider
Duração: 86 minutos

Quando pensamos em um estudo de personagem dentro do cinema, a maneira mais comum de fazê-lo é criando uma personalidade, talvez até a partir das referências de algum conhecido ou pessoa famosa, e contratar um ator para colocá-lo em um cenário específico para falar sobre suas características. O que Tizza Covi e Rainer Frimmel fazem é o oposto: eles conhecem Alois Koch, cantor de blues da vida real e que se tornou um amigo ao longo dos anos, e a partir de sua amizade propõe uma ficção. Utilizando pontos chaves de sua autobiografia real, eles pedem para que ele atue em uma realidade alternativa na qual ele precisa abandonar a sua casa por conta de especulação imobiliária (tema recorrente neste festival).

A dupla de diretores já é bastante acostumada ao cinema documental, pelo qual já foi inclusive premiada, mas consegue abraçar bem o espaço da ficção quando necessário. A grande questão do filme é que a personalidade de Al Cook é tão fascinante que como público, estamos dispostos a assistir qualquer ação que ele tome. Esse cantor de blues vienense que carrega em seu coração uma liberdade imaginada do delta do Mississipi nos anos 1950 tem um equilíbrio entre a inocência pretendida e uma solidão crônica que o torna, no fim das contas, o homem mais solitário da cidade.

Existe uma noção de não pertencimento que parece real ao ator-personagem e que certamente falará diretamente com todas as pessoas que sentem algum vazio existencial irão se relacionar. O luto carregado por décadas e que culmina nessa paralisia em um tempo idealizado também é uma questão que independe de idade e momento, então também é um elemento universal que faz com que a história tenha um peso para todos os que assistem. Conseguir inclusive equilibrar essa melancolia interna com momentos de alegria e de um certo humor também é o que dá ao filme um tom tão diferenciado e que evita cair nos extremos. Da escolha do casting secundário de uma vira lata simpática até a importância das cenas de Al se olhando no espelho e arrumando, há uma observação sobre os detalhes da vida que a tornam mais colorida mesmo em meio aos blues que é o que torna o filme tão interessante.

O que talvez pudesse ser o maior problema do filme, dado que a dupla de diretores é mais conhecida pelo seu cinema documental, seria encontrar o equilíbrio entre o documentário e a ficção. Felizmente, eles conseguem tirar essa questão de letra e conseguimos compreender bem que este é um personagem baseado na realidade, mas que está em uma proposta fictícia de realização. Existe um bom compromisso com a estética do personagem, utilizando sua casa de verdade e fazendo apenas as alterações cenográficas necessárias, mas que também se desdobra em questões como o uso da filmagem em 16mm, que dá ao filme a textura daquele tempo perdido.

Em conclusão, o filme é uma experiência deliciosa de imersão que traz uma reflexão real sobre a vida de um homem que decidiu ter os seus princípios resguardados e que lida com as consequências, boas e ruins, dessas escolhas. Felizmente, ele consegue fugir das armadilhas fáceis do maniqueísmo para, ao invés disso, ser propositivo aos espectadores sobre uma reflexão do modo que levamos as nossas vidas.

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