Crítica | Fantasia 2026 | The Last Footage

The Last Footage (Mianmar, 2026)

Título Original: The Last Footage
Direção: Arkar Soe Oo
Roteiro: Arkar Soe Oo
Elenco principal: Arkar Soe Oo, Kyaw Kyaw Bo, Charlie Nyein, Li Li Kyaw Khaing
Duração: 88 minutos

Apesar de certo costume em assistir ao cinema internacional, é muito raro me deparar com um filme produzido e gravado no Mianmar. O país vive situações de idas e vindas de ditaduras militares desde os anos 1960 e, apesar de ter sido um expoente asiático dentro dos primeiros cinemas, passa atualmente por processos de censura bastante extremos. Com isso, há pouco cinema sendo produzido dentro do país, e menos ainda que consiga chegar ao público estrangeiro, fazendo com que The Last Footage seja uma espécie de milagre.

Com a divulgação que ele é o primeiro filme de found footage (subgênero do terror que simula ser um registro real amador) produzido no país, ele se inicia com diversas cenas cotidianas, nos deixando claro que se tratam de registros de pessoas que utilizam os óculos 4K que foram utilizados para gravar o filme. Por mais que sejam momentos com pouca relação com o que veremos em seguida, é interessante perceber um pouco do modo de vida dentro do país, que é extremamente fechado aos estrangeiros. Nessa proposta de introdução ao mecanismo de gravação, já ocorre uma gradação no tom dos acontecimentos, que vão rapidamente de férias em família para uma investigação paranormal.

Então, quando a narrativa principal se inicia, já sabemos melhor o que esperar, principalmente quando o grupo de amigos tem a infeliz ideia de ir para uma floresta abandonada na qual um deles recebeu um terreno como herança. Apesar de ainda não termos informações o suficiente para saber qual será o tipo de terror que eles enfrentarão, fica claro que eles irão se deparar com algum desafio sobrenatural. Isso é reforçado pela narrativa a todo o tempo: a presença de uma criança, que dá o senso de responsabilidade, o parente distante que aparece para alertar sobre os perigos, o ônibus que quebra no caminho.

Assim, pensando no filme como um found footage em pé de igualdade de produção com todos os outros filmes do gênero, ele se tornaria mais uma obra que trilha caminhos bastante seguros e que se torna extremamente previsível para um público já acostumado aos filmes de terror. Mais do que isso, ele conta com efeitos especiais simples, feitos com pouca técnica e pouco dinheiro, e que causam o efeito contrário ao medo que se esperaria. Isso ainda poderia ser utilizado como uma forma de estética, indo para o caminho do camp, mas ele segue se levando bastante a sério e é difícil acompanhar quando o filme tem reviravoltas como encontrar a bruxa da floresta ou um monstro que é claramente uma pessoa com uma fantasia.

Mas, ainda que tudo isso precise ser apontado, também é injusto colocar o filme em pé de igualdade com qualquer produção que seja feita em um país que não enfrenta os problemas de censura e de distribuição que ocorrem no Mianmar. Os óculos aparecem como uma forma de driblar a dificuldade em produzir filmes, não existe um bom mercado que possa suprir os efeitos visuais desejados, não sabemos como é a cultura fílmica do país para compreender o quanto ele sabe que cai em estereótipos. Ou seja, ainda que ele seja uma experiência sofrível para quem assiste, ainda representa um passo de rebeldia em um país autoritário e isso deve ser no mínimo respeitado.

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