Crítica | Muito Prazer

Muito Prazer (Brasil, 2026)

Título Original: Muito Prazer
Direção: Jorge Furtado
Roteiro: Jorge Furtado
Elenco principal: Daniel de Oliveira, Luisa Arraes, Samantha Jones, Drica Moraes, Felipe Velozo, Nicolas Vargas, Catharina Conte
Duração: 98 minutos
Distribuição: Elo Studios

Quando pensamos em diretores brasileiros com uma carreira prolífica, o nome de Jorge Furtado certamente irá aparecer, dados seus mais de 40 créditos como diretor, seja no cinema ou na televisão. Se é difícil encontrar uma pessoa que não tenha topado com Ilha das Flores (1989) em sua formação cinéfila, é igualmente raro encontrar quem não conheça ao menos O Homem Que Copiava (2003) ou Saneamento Básico, o Filme (2007). Em seus longa-metragens, ele sempre utilizou a linguagem da comédia para falar de problemas sociais e até mesmo das inquietações da humanidade como um todo.

Obviamente, isso se repete em Muito Prazer. Na obra, Rubem (Daniel de Oliveira) herda um motel de seu tio e, cheio de compromissos financeiros, tenta encontrar qual a melhor forma de começar a ganhar dinheiro com ele. Ao chegar no espaço, acaba descobrindo que Grace (Luisa Arraes), uma ex-funcionária para quem o tio ainda devia encargos, está vivendo ali. Juntos, eles passam a tentar buscar maneiras de fazer o imóvel dar algum tipo de lucro, mesmo que seus métodos não sejam exatamente ortodoxos.

É curioso que o filme chegue aos cinemas apenas dois anos depois de Motel Destino (2024), de Karim Aïnouz, porque eles compartilham justamente esse ambiente de um motel com pouco movimento. No meio do caminho, ainda temos Eros (2025), o documentário inventivo de Rachel Daisy Ellis no qual ela convida pessoas a se filmarem consensualmente dentro de motéis. Ainda que o tom de cada uma dessas obras seja completamente distinto, é interessante como temos diversos filmes que parecem circular em torno desse mesmo espaço e com um questionamento sobre a crise do desejo pela qual a sociedade parece passar, e que tem consequências diretas naquilo que vemos nas telas grandes, com situações como cenas de sexo sendo tiradas de filmes para não desagradar ao público mais conservador.

A abordagem de Jorge Furtado vem cercada do humor pelo qual ele ficou conhecido em toda a sua carreira – não com piadocas simples voltadas ao público, mas sim através de um certo constrangimento entre os personagens em tela. Inclusive, os momentos nos quais a obra se torna mais interessante são aqueles voltados para a construção desses personagens e de suas relações. Se por um lado temos Rubem como um homem resolvido em suas ações, mas romântico no campo amoroso, Grace vem como um excelente contraponto como alguém bem resolvida no campo amoroso, mas com mais dificuldades na criação de relações com outras pessoas. Ver, inclusive, uma personagem feminina assexual e que consegue lidar muito bem com a sua sexualidade é o tipo de contraponto que funciona em termos de representatividade, mas também em uma certa desmistificação. Existem elementos na própria caracterização da personagem que ajudam a compreender seus pormenores, de sua paixão pelas nuvens até um figurino bastante focado em peças de materiais naturais e que parecem feitas à mão.

Além disso, o filme brinca bastante com as noções de desejo e privacidade sem criar uma campanha moralista em cima disso, o que já é uma excelente mudança em relação ao que vemos, por exemplo, vindo do cinema estadunidense. Talvez até pelas questões de uma moralidade mais inexata vinda das personagens, temos o conflito sempre presente, mas de forma relativamente leve. A maior dificuldade que a obra enfrenta seja ligada a criar esses conflitos e resolvê-los, pois tudo parece acontecer de forma muito fácil e tranquila, sem dar uma noção mais profunda de ações e consequências.

Assim, o desenrolar do segundo ato muitas vezes parece uma briga entre gato e rato que não encontra um fim, apenas fica sendo levada para um lado e para o outro. Com isso, por mais que exista uma ótima ambientação e personagens bem construídos, é muito difícil manter o espectador realmente se importando com aquilo que acontece na narrativa.

Longe de ser o melhor ou o pior filme para falar sobre a crise do desejo, a obra ainda é muito eficiente em criar personagens e cenas memoráveis, algo bem típico do cinema de Jorge Furtado. E, para o cinema brasileiro como um todo, é feliz ter mais uma obra que fuja do eixo Rio-SP.

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