Crítica | 51º TIFF | Eu Sou o Rocky

Eu Sou o Rocky (Estados Unidos, 2026)

Título Original: I Play Rocky
Direção: Peter Farrelly
Roteiro: Peter Gamble
Elenco principal: Anthony Ippolito, AnnaSophia Robb, Stephan James, Toby Kebbell, Matt Dillon, P. J. Byrne, Tracy Letts
Duração: 127 minutos (2h 7min)

Quer as pessoas gostem ou não de filmes de esportes, em 2026 é impossível negar a importância que Rocky, um Lutador (1976) teve na história do cinema. Com a obra completando 50 anos e com o cinema estadunidense amando fazer autorreferências aos seus marcos importantes, I Play Rocky surge como essa obra que presta homenagem à produção do filme, que para muitos cinéfilos já é bem conhecida pela persistência de Sylvester Stallone em realizá-lo.

Começamos a história com um Stallone (Anthony Ippolito) bem jovem, passando pelos momentos mais difíceis de sua vida enquanto tenta uma carreira como ator. Todos aqueles momentos que estão em retrospectivas sobre a sua vida ou que depois se tornaram notícias, como a venda de seu cachorro para um desconhecido ou sua atuação em um filme de conteúdo erótico estão ali, dramatizadas, e realmente adicionam um peso na construção do roteiro sobre o homem que tem um sonho de atuar, e seu reflexo na escrita do roteiro dentro da trama sobre o homem que deseja lutar boxe. Como já é esperado, o filme lida com esse reflexo entre a vida de Stallone e sua projeção no roteiro que ele escreve.

Obviamente, o ponto central para o funcionamento da obra é a atuação de Anthony Ippolito, que é extremamente convincente no seu papel. Ainda que naturalmente seja difícil imaginar um ator interpretando um rosto tão conhecido e que tem sua peculiaridade da paralisia parcial, o jovem ator faz um trabalho fenomenal ao incorporar essas informações para a construção do personagem inspirado na vida real. Não parece uma paródia do Stallone real, mas sim uma interpretação de sua personalidade, o que faz com que a experiência do espectador se torne imersiva ao invés de ficar reparando em cada detalhe buscando a imitação perfeita.

Também impressiona toda a ambientação realizada, justamente por colocar em tela uma Nova Iorque distante daquela idealizada pelo cinema a partir dos anos 2000. A criminalidade e a sujeira também aparecem, de forma a auxiliar na construção dessa narrativa de contrastes que fazem com que o roteiro de Rocky seja escrito – e que Stallone insista em atuar no papel principal.

É difícil não citar que Peter Farrelly está em seu primeiro projeto após ganhar o Oscar por Green Book, filme que causou controvérsias por sua narrativa de salvador branco principalmente após ganhar o destaque na mídia por vencer a premiação. Aqui, ele novamente conta uma história baseada em pessoas reais e que não foram envolvidas na construção do roteiro, o que abre a possibilidade de criação de novas polêmicas quando o filme tiver uma distribuição regular. Ele parece se afastar disso ao confiar nas cenas icônicas para a construção dessa obra clássica, que segue bem as regras do cinema blockbuster estadunidense e conta uma história icônica e auto referente, mas por se tratar de pessoas reais e que seguem vivas, sempre existe a possibilidade de uma recepção complexa por parte dos envolvidos.

Justamente por tratar desse cinema clássico de forma bastante quadrada, ainda que o longa consiga manter a atenção dos espectadores, ele não tem um impacto muito duradouro em nenhum aspecto além da atuação de Ippolito. Ele é uma obra segura sobre um acontecimento icônico, e por se manter sempre nesse formato, acaba perdendo força na medida em que compreendemos que se tratará de uma cinebiografia simples de um filme como personagem principal, ao invés de uma figura histórica.

O filme acaba caindo um pouco neste limbo, longe de ser uma experiência cinematográfica desastrosa, mas também sem acrescentar nada em termos de narrativa ou de forma. Seguro de que conta uma história que os fãs de cinema não se cansam de ouvir, Farrelly novamente confia na realidade para criar sua ficção.

I Play Rocky (United States, 2026)

Original Title: I Play Rocky
Director: Peter Farrelly
Writer: Peter Gamble
Cast: Anthony Ippolito, AnnaSophia Robb, Stephan James, Toby Kebbell, Matt Dillon, P. J. Byrne, Tracy Letts
Runtime: 127 minutes (2h 7min)

Whether or not people enjoy sports movies, by 2026 it is impossible to deny the historical significance of Rocky (1976). As the film marks its 50th anniversary, and with USA cinema’s fondness for self-referential nods to its own milestones, I Play Rocky arrives as a tribute to the making of the original movie. For many cinephiles, that story is already well-known, particularly regarding Sylvester Stallone’s persistence in getting the project off the ground.

The story begins with a very young Stallone (Anthony Ippolito) navigating the toughest moments of his life while pursuing an acting career. Key episodes often cited in retrospectives or past news stories, such as selling his dog to a stranger or appearing in an erotic film, are dramatized here. They add genuine weight to the screenplay’s portrayal of a man dreaming of an acting career, mirroring the script-within-the-script about a man who wants to box. As expected, the film explores the interplay between Stallone’s real life and the character he creates on the page.

Naturally, the film’s success hinges on Anthony Ippolito’s performance, and he is incredibly convincing in the role. While it is inherently difficult to imagine an actor portraying such a famous face, especially one defined by the distinctiveness of partial facial paralysis, the young actor does a phenomenal job incorporating these traits to build a character based on a real-life figure. It doesn’t feel like a parody of the real Stallone, but rather an interpretation of his personality; this makes the viewer’s experience immersive, rather than one spent scrutinizing every detail in search of a perfect imitation.

The film’s setting is also impressive, precisely because it portrays a New York far removed from the idealized version often seen in cinema from the 2000s onwards. Crime and grime are depicted as well, helping to build the narrative of contrasts that led to the writing of the Rocky script — and to Stallone’s insistence on playing the lead role.

It is hard not to mention that this is Peter Farrelly’s first project since winning the Oscar for Green Book (2018) — a film that sparked controversy over its “white savior” narrative, particularly after gaining media attention for its award win. Here, he once again tells a story based on real people who were not involved in crafting the screenplay, opening the door for potential controversy once the film receives a wide release. He seems to sidestep this by relying on iconic scenes to build a classic-style work; the film adheres closely to the conventions of United States blockbuster cinema and tells an iconic, self-referential story. However, because it involves real people who are still alive, there is always the possibility of a complicated reception from those involved.

Precisely because it approaches this classic style in a rather conventional manner, the film, while managing to hold the audience’s attention, fails to leave a lasting impact in any area other than Ippolito’s performance. It is a safe film about an iconic event; by sticking to this formula, it loses momentum as the viewer realizes it is essentially a straightforward biopic where a movie — rather than a historical figure — serves as the protagonist.

The film ultimately falls somewhat into this limbo — far from being a disastrous cinematic experience, yet adding nothing in terms of narrative or form. Confident that he is telling a story film fans never tire of hearing, Farrelly once again relies on reality to craft his fiction.

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