Crítica | Street Fighter

Street Fighter (Estados Unidos, Japão, 2026)

Título Original: Street Fighter
Direção: Kitao Sakurai
Roteiro: T. J. Fixman e Kitao Sakurai (a partir de história de Dalan Musson e Gary Dauberman)
Elenco principal: Andrew Koji, Noah Centineo, Callina Liang, Roman Reigns, David Dastmalchian, Cody Rhodes, Eric André, Andrew Schulz, Vidyut Jammwal, 50 Cent, Jason Momoa, Orville Peck
Duração: 119 minutos
Distribuição: Paramount Pictures

Em um ano em que a nostalgia dos anos 1990 está em alta, e com a possibilidade de lidar com uma propriedade intelectual muito famosa e cultuada, parecia inevitável que um novo filme de Street Fighter fosse feito. Se a obra de 1994 se tornou um clássico por sua qualidade duvidosa e um humor involuntário, a proposta de Kitao Sakurai era trazer o foco de volta às lutas e a uma trama melhor desenvolvida em torno dos personagens principais Ryu e Ken.

Para quem não conhece os jogos, a franquia vem desde os anos 1990 criando cenários de lutas de jogador contra jogador, com personagens que ao longo do tempo se tornaram icônicos por seus golpes e visuais. Os personagens enfrentam oponentes em uma disputa, chegando até as fases finais nas quais lutam com M. Bison, um líder de uma facção criminosa que praticamente fez algum mal a cada um daqueles lutadores, tornando praticamente todas as histórias contadas uma narrativa de vingança. 

Pensar em como tornar essa mecânica mais simples em um filme foi uma tarefa complexa, e eles utilizam a mesma base na qual Ryu (Andrew Koji) e Ken (Noah Centineo) foram irmãos de criação cujos caminhos diferiram após a morte de seu pai de criação. No entanto, quando Chun-Li (Callina Liang) recruta ambos para uma competição de luta, eles precisam encarar o passado para tentar garantir sua própria sobrevivência. Para tornar essa experiência em algo cinematográfico, foram adicionadas pequenas subtramas relacionadas aos personagens principais, assim como grandes lutas coreografadas para manter o nível de entretenimento ligado aos videogames.

A grande questão é que o roteiro permanece sendo um tanto genérico, mesmo quando conseguem desenvolver um pouco melhor a personalidade dos personagens. Existe uma tentativa de abraçar a estética camp que não parecia intencional no primeiro longa, o que funciona perfeitamente para a caracterização e direção de arte, mas encontra uma dificuldade em conseguir manter esse clima no roteiro. As piadas soam um pouco forçadas, assim como as relações entre os personagens que funcionam apenas para quem já tem um pouco do contexto de jogo, não funcionando tão bem para um público que nunca teve contato com a franquia. Sabendo da trama um tanto genérica, a obra parece se aproveitar disso para criar os exageros da qual depende para funcionar, mas isso acaba tendo efeitos conflitantes: às vezes, funciona muito bem e consegue criar o humor desejado, e às vezes simplesmente parece uma piada sendo forçada nos espectadores.

Talvez por uma inexperiência do diretor com os longa-metragens, considerando que ele possui mais produções voltadas para a televisão, também existem graves problemas de montagem na obra. Um primeiro problema são os hiatos criados em meio de uma cena para voltar a um flashback e que depois não conseguem retornar exatamente para o mesmo momento, criando uma sensação de repetição nos espectadores. Além disso, o filme brinca com a linguagem da animação para os flashbacks, o que funciona bem para diferenciar visualmente o que acontece no presente e o que está no passado, mas ao mesmo tempo acaba criando um conflito visual quando usado nessa interrupção de cena. No início da obra, quando vemos toda a sua introdução em uma animação belamente criada, imaginamos que o recurso será utilizado apenas para isso, o que funcionaria bem, mas quando ele permanece retornando em meio a cenas de live action, isso gera um desconforto.

É interessante perceber como todas as pessoas envolvidas no filme são fãs do videogame a que existiu uma preocupação em manter tanto os elementos visuais clássicos quanto uma ligação maior entre as origens dos personagens dos jogos com a dos atores que os interpretam. Isso por si só já é um grande avanço, ainda mais considerando como o cinema estadunidense historicamente tratou os seus atores de origem asiática como um grupo homogêneo, algo que não é real. Infelizmente, o mesmo não foi refletido para o único personagem latino, que segue sendo interpretado por um estadunidense (Jason Momoa) que é muito fã do personagem.

Entre acertos e erros, o filme consegue entreter, que é na realidade a sua maior função. Boa parte de seus desconfortos parecem ser causados por uma trama introdutória que possivelmente continuará sendo explorada em continuações. Resta saber se existirá trama o suficiente para que essa propriedade intelectual evolua, pois se manter nessa mesma tecla da competição internacional de lutadores não é o suficiente para mais um longa-metragem.

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