A Voz da Virgem (Brasil, 2025)
Título Original: A Voz da Virgem
Direção: Pedro Almeida
Roteiro: Pedro Almeida
Elenco principal:Jorge Caetano, André Celant, Michel Andrade, Henrique Anselmo, Raquel Maia, Morgana Corrêa e Natália Caruso
Duração: 90 min
Ao contrário da estranheza causada pela citação da obra de Emílio Bonifácio em Tannhäuser, A Voz da Virgem consegue utilizar muito bem a sua inspiração no simbolismo de Cruz e Sousa para criar algo novo e compreensível ao público. Em uma mistura de uma busca pelas estátuas e fantasmas do Rio de Janeiro e um religioso em profunda crise por conta de sua sexualidade, o filme mistura elementos do sagrado e do profano para lidar com temores internos. Tudo isso acontece enquanto o protagonista, o Padre Fernando (Jorge Caetano) vaga pelo Rio de Janeiro atrás de uma figura misteriosa, que ele chama de Virgem Escura.

O filme funciona muito bem através de contrastes. O já citado contraste entre sagrado e profano é o mais presente, com cenas bastante sensuais sendo contrabalançadas por narrações em off de uma culpa cristã. As próprias figuras apresentadas têm em si essas duas facetas, como o padre que se apaixona e a Virgem Escura, uma mulher enlutada, que ao mesmo tempo em que está com um grande véu negro também está de mini saia.
Somos guiados por esse universo através do padre em crise, mas existe uma preocupação da direção de fotografia em contextualizar o espaço físico onde se encontram. De estátuas dos irmãos Rebouças (reconhecidos como primeiros engenheiros negros do país) ao foco na Catedral de São Sebastião do Rio de Janeiro e seus vitrais maravilhosos, uma admiração pela cidade está sempre presente, deixando claro também suas contradições históricas. Também se faz questão de mostrar os contrastes dos espaços, como a grandiosidade da Catedral em comparação ao seu interior iluminado e cheio de exibidores para mostrar artigos da fé.
Se isso já seria o suficiente para gerar interesse no público, a obra ganha ainda mais a partir do momento em que se joga em uma linguagem mais experimental. Passamos a nos hipnotizar pela mistura da narração com as imagens que são alteradas, tingidas, esgarçadas ou mostradas de maneira voyeur através da fechadura de uma porta. O contraste entre o desejo e o conceito de pecado se torna cada vez mais tênue, gerando uma provocação interessante e necessária dentro das ondas de conservadorismo que estamos passando como país.
Há ainda o elemento da trilha sonora, muito presente no filme e que também está lidando com essa questão do sagrado e profano – principalmente ao contrastar o profano em tela com o sagrado que ouvimos. O único elemento que não consegue se manter em um formalismo conceitual é a direção de arte, que parece perder-se com a quantidade de elementos propostos e não presta atenção a detalhes que acabam tirando um espectador mais atento da trama.
Enfim, temos um filme que consegue dialogar a forma com o conteúdo e criar algo realmente provocador a partir de questões espirituais e também raciais. Talvez falte à crítica que vos fala o tempo necessário para digerir a obra por inteiro, dado o contexto da rapidez dos festivais – mas certamente é uma obra que eu gostaria de realizar uma revisita.




