Critíca | 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes | Palco Cama

Palco Cama (Brasil, 2025)

Título Original: Palco Cama
Direção: Jura Capela
Roteiro: Jura Capela e Rodrigo Lima
Elenco principal: José Celso Martinez Corrêa
Duração: 70 min

É impossível ser uma pessoa ativa culturalmente e não conhecer ou ao menos reconhecer a importância do Teatro Oficina e seu grande representante, José Celso Martinez Corrêa, vulgo Zé Celso. O diretor, ator e dramaturgo foi uma figura muito relevante na cena artística brasileira, seja por seu trabalho em oposição à ditadura ou até mais recentemente por sua luta judicial com Silvio Santos por conta do terreno no qual o teatro foi construído. Assim, haver um conteúdo documental que o traz falando sobre sua própria vida e pensamentos artísticos, ainda mais após seu falecimento em 2023, já é uma joia cinematográfica por si só.

O que o diretor Jura Capela realiza neste filme é trazer um novo palco, bastante intimista, para que Zé Celso possa explorar. Ele é retratado nesse espaço tão pessoal do seu próprio quarto, ou como ele nomeia, em seu palco cama: espaço onde as ideias são geradas, gestadas, e onde ironicamente ele viria a estar no incêndio que acabou ceifando sua vida material, sendo então também a sua última morada. Em um cenário confortável e dando a palavra ao entrevistado, sem nunca se colocar nem em cena, o diretor consegue extrair uma conversa sem amarras, deixando o fluxo de ideias do pensador seguir em seu próprio ritmo. É interessante que o diretor abre mão até de decisões criativas para manter Celso confortável, como ao permití-lo decidir as luzes que serão utilizadas – algo retratado já nos primeiros minutos de filme.

Ao lembrarmos que o filme é montado por Jura Capela junto a Rodrigo Lima, nos recordamos também que a escolha por permanecer qual material adentrar ou não o filme também é escolha do diretor. Isso ajuda a criar a persona do retratado, com a necessidade de realizar as suas próprias escolhas artísticas mesmo quando colocado em frente às câmeras. Mesmo assim, não é utilizada nenhuma técnica para gerar um olhar de quem julga Zé Celso. Cada decisão criativa tem a intenção de contar uma história, como os closes em sua pelve enquanto ele fala sobre gozo, e essa montagem quase invisível também quase nos engana a pensar que se trata de um material bruto.

Também é bastante fácil se deixar impressionar com a fala de Zé Celso, e parte do brilho da obra está neste magnetismo. Capaz de olhar para sua própria trajetória com certo pragmatismo e de circular por muitos espaços e questionamentos, ele solta com tranquilidade frases como “o gozo é gozado” e “alucinar é a lucidez”, que fazem com que o espectador se vidre em sua existência e eloquência tal qual a câmera que o filma. Além de sairmos da sala de cinema com um grande questionamento existencial, também ficamos encantados com a forma fílmica, que com sua simplicidade consegue transmitir o pensamento profundo.

Em uma época de vídeos curtos pensados para um público que precisa consumir conteúdos simples e sem muito significado, quebrando até mesmo as mais simples das frases, o minimalismo de palavras que carregam em si universos é quase libertador para a cabeça pensante. Que felicidade é saber que pelo menos este conteúdo está eternizado nas telas de cinema.

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