Crítica | 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes | Vulgo Jenny

Vulgo Jenny (Brasil, 2025)
Título Original: Vulgo Jenny
Direção: Viviane Goulart
Roteiro: Viviane Goulart
Elenco principal: Juliana Dalle, Marco Coimbra, Allan Jacinto Santana, Fred Praxedes, Arthur Cintra, Danielle Borges da Silva
Duração: 82 minutos

Os primeiros minutos de Vulgo Jenny são confusos. De uma câmera subjetiva de uma motocicleta passamos para uma mulher, e essa mulher conta a sua história de saída de um relacionamento abusivo para precisar se virar para seguir com a vida em Goiânia. Aí, entendemos que ela está nos introduzindo ao que aconteceu após aqueles acontecimentos, através de uma história sobre sua vida narrada por seu amigo Marcão (interpretado por ele mesmo, o poeta marginal Marco Coimbra).

Esse pequeno preâmbulo é uma abertura para a história dentro da história, com Jenny sendo interpretada por Juliana Dalle. Aqui, a história se torna relativamente mais simples, ainda que apresente algumas elipses temporais. Temos narrada a história dessa mulher cujo companheiro sumiu no mundo e que está sendo amparada por Primo e Rato enquanto aguarda notícias. A narrativa do longa acontece em um curto espaço de tempo, mas com indicadores de uma trama tão viva que conseguimos ver muito mais detalhes contidos no filme. Questões como quem são esses personagens, de onde eles vêm e para onde eles vão são apenas pinceladas, com um foco grande nos acontecimentos do presente cênico.

Sendo uma adaptação de um conto real, a obra consegue enxergar que o que tem de melhor está na construção desses personagens interessantíssimos, do ex-policial de baixa patente “trambiqueiro” até a mulher extremamente carismática que sem querer se torna esse centro de gravitação da vida dos dois homens. O conteúdo relacionado a essas pessoas enraizadas na realidade se mistura com uma linguagem um tanto documental, que faz questão de mostrar os espaços que elas ocupam de maneira fiel e direta. Vindo de um cinema marginal, feito com pouco dinheiro e muita vontade, é uma escolha bastante feliz a de reconhecer seu espaço de ocupação para aproveitar e mostrar de maneira pouco estereotipada a sua realidade.

Se por um lado o orçamento da produção pode se tornar desafiador em cenas como as relacionadas ao desmanche de um carro, em outras ele funciona como uma solução dentro da própria lógica de produção. Ao usar Marco Coimbra como ator de seu próprio papel, por exemplo, a obra cria mais dimensionalidade, ainda mais ao abraçar toda a vida do escritor como o seu trabalho de garapeiro. Até mesmo as cenas com a mulher que inspirou a personagem da Jenny no início do longa fazem com que o espectador se conecte ainda mais com a história.

Obviamente, existem soluções técnicas que precisam ser tomadas por conta do baixo orçamento que serão mais impactantes no filme. É o caso das cenas realizadas com câmeras subjetivas, que parecem mais frequentes quanto mais o filme se aproxima do fim, e das dificuldades por gravar em espaço público como as pessoas curiosas passando e olhando para a câmera. No entanto, isso não chega a atrapalhar seu andamento, pois é uma linguagem que combina com a impressão causada pelo filme.

Ele funciona como uma espécie de homenagem poética às pessoas normais, sem romantizar a sua marginalização nem tentar higienizá-la. E, justamente ao conseguir fazê-lo com uma estrutura narrativa interessante ao público, é fechado este ciclo de comunicação que parece ser a sua intenção, de apresentar esses personagens ao mundo de maneira honesta e respeitosa.

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