Crítica | 76ª Festival de Berlim | No Good Men

No Good Men (Alemanha, França, Noruega, Dinamarca e Afeganistão, 2026)

Título Original:No Good Men
Direção: Shahrbanoo Sadat
Roteiro: Shahrbanoo Sadat
Elenco principal: Shahrbanoo Sadat, Anwar Hashimi, Liam Hussaini, Yasin Negah e Torkan Omari
Duração: 103 min

O posto de filme de abertura do Festival de Berlim é bastante peculiar, pois apesar de ser uma posição de certo prestígio, também é uma caixa de surpresas. No ano passado tivemos o lançamento do novo filme de Tom Tykwer, A Luz, uma escolha um pouco mais óbvia considerando tanto a origem alemã do cineasta quanto a relação de proximidade que a obra tem da cidade Berlim. Em 2026 fomos surpreendidos por No Good Men, produção da diretora afegã Shahrbanoo Sadat, diretora com poucos e bem premiados longa-metragens, erradicada na Europa após a queda do regime em 2021, sendo que além de dirigir e roteirizar, ela também é atriz principal da narrativa.

A obra traz uma situação bastante atípica. Se passa no período de intervenção militar dos EUA no Afeganistão, quando aconteceu uma relativa calmaria política, principalmente nas grandes cidades, e um aumento da participação feminina tanto na educação quanto no mercado de trabalho. É nesse contexto que acompanhamos Naru (interpretada por Sadat), uma das poucas cinegrafistas mulheres em um canal de televisão afegão. Em um momento difícil após se separar do pai do seu filho, ela está em uma fase que praticamente toda mulher com interesses românticos em homens passa, que é a de que “nenhum homem presta no Afeganistão”. Mas então, como só poderia acontecer na que é autointitulada primeira comédia romântica afegã, ela conhece um homem em seu trabalho, Qodrat (Anwar Hashimi), que talvez seja capaz de mudar a sua opinião.

Ele tem um roteiro inteligente no que diz respeito a brincar com as convenções do gênero e transitar por uma visão quase documental sobre como era viver no Afeganistão na época com o drama interno dessa mulher querendo se divorciar e encontrar uma liberdade ainda impossível dentro da legalidade no país. É o tom da sua vivência que dita o tom de toda a narrativa, com uma dose de comédia bastante peculiar sendo equilibrada por grandes acontecimentos históricos difíceis e dramáticos.

Mesmo tendo sido gravado em locações em outros países pensadas para parecer aquele momento e local históricos, nos é permitido um vislumbre do clima político e social específicos, e ainda por cima pelo ponto de vista de uma personagem bastante progressista, até mesmo em relação às suas amigas mulheres. Essa reconstrução nos transporta bem para Cabul, sendo a cidade uma personagem ativa no filme, com foco nas pessoas, ruas, discussões que ouvimos ao fundo das cenas e até mesmo o trânsito caótico que nos afligimos em ver. A obra faz questão de colocar esses espaços públicos de convivência como sua locação em um esforço de manter essa memória viva para os artistas, todos exilados de seu país de origem, em mais um exemplo do cinema na importância da manutenção de uma memória coletiva sobre acontecimentos.

A diretora é sagaz em construir acontecimentos na vida pessoal desses personagens que ressoam com a história do país. Mesmo quando eles são muito livremente inspirados em fatos reais, ajudam a criar a noção das mudanças de ventos no país, guiando os espectadores de maneira firme, mas não excessiva. Utiliza-se estética e narrativas estereotipadas para se falar de algo muito único e pouco retratado no cinema, aproximando o público e permitindo que ele vivencie junto com os personagens como o país mudou rapidamente em poucos anos.

Mesmo sendo um filme atrevido em suas escolhas e que não necessariamente está recebendo um grande destaque na medida em que o festival se aproxima de seu fim, ele acaba se tornando mais transgressor na medida em que se analisa cada uma de suas escolhas narrativas e estéticas. E faz com que a diretora, antes completamente fora do meu radar como público e crítica, se torne um objeto de bastante interesse. 

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