Quatro Meninas (Brasil e Países Baixos, 2025)
Título original: Quatro Meninas
Direção: Karen Suzane
Roteiro: Clara Ferrer
Elenco principal: Ágatha Marinho, Alana Cabral, Dhara Lopes, Maria Ibraim, Duda Batsow, Duda Matte, Gabi Cardoso, Giovanna Rispoli, João Vitor e Dani Ornellas
Duração: 89 minutos
Ainda que exista uma infinidade de filmes sobre aristocracias europeias, acontecimentos da Idade Média e até alguns que pensam na humanidade da Idade Antiga, são raros os filmes de época brasileiros. Seja por uma questão da quantidade de trabalho necessário pela produção de arte, campo que segue não alcançando seu potencial pleno no país, ou por conta da nossa dificuldade crônica em lidar com nossos traumas e erros como país, só recentemente se começou a abordar um período muito mais próximo com mais frequência, o da Ditadura Militar. Assim, realizar um filme que se passa no período após a Independência e antes da Abolição já é um ato de coragem por si só.

Mais do que isso, Quatro Meninas se inicia com um protagonismo feminino negro, algo ainda menos abordado. Tita, Lena, Francisca e Muanda são pessoas escravizadas que trabalham em um internato para meninas, mas que sonham com a sua liberdade. Elas criam um plano de fuga para um quilombo, que é interrompido quando quatro das meninas brancas que estudam no internato descobrem e acabam alterando esse plano, e se juntando a elas.
Existe um lado pelo qual essa decisão narrativa funciona. A obra passa a operar através de contrastes, colocando os privilégios dessas garotas brancas em evidência mesmo na situação de fugitivas. Com elementos que vão da qualidade de roupas, passam pela coragem e chegam nas possibilidades que essas pessoas vão ter na sociedade após a fuga, o contraste funciona muito bem para deixar claras algumas das questões do período de escravidão brasileiro. Só que ao mesmo tempo em que isso funciona para dar essa noção, também faz com que a obra perca justamente o protagonismo negro que tornava o filme único. Divide-se o tempo de tela entre os dois núcleos e, por mais que seja o núcleo negro que faça com que a narrativa siga, passa-se bastante tempo lidando com as suas questões, e esse tempo de tela é retirado do núcleo negro.
Percebe-se também uma preocupação em utilizar cenários e até um figurino que dialoguem com o período representado de maneira verossímil, e considerando principalmente os cenários de fazendas abandonadas propostos, isso é realizado. Mas isso não consegue disfarçar um roteiro sem subjetividade, no qual tudo que é exposto ou desejado precisa estar na boca das personagens, e nunca em suas ações. Isso acaba tornando a obra mais repetitiva e ainda reforçando um estereótipo de gênero da conversa sem fim.
Tudo isso faz com que a obra evolua para um tom bastante conciliatório, ignorando a complexidade do problema da escravidão no país e como até mesmo a sua abolição não foi uma solução razoável para o racismo estrutural. Se por um lado é claro que houveram histórias diversas envolvendo a população negra nesse período, a escolha por uma com um tom tão açucarado também parece descabida.
Assim, o filme ousa em seu recorte, mas perde parte de sua força a partir de suas escolhas narrativas.




