Crítica | 76º Festival de Berlim | Everybody digs Bill Evans

Everybody Digs Bill Evans (Irlanda, Reino Unido e Estados Unidos, 2026)
Título Original: Everybody Digs Bill Evans
Direção: Grant Gee
Roteiro: Mark O’Halloran
Elenco principal: Anders Danielsen Lie, Bill Pullman, Laurie Metcalf, Barry Ward, Valene Kane, Katie McGrath
Duração: 102 minutos

Se existe um sub gênero de filme que conseguiu se saturar nos últimos anos, este foi a biografia musical. Desde o inexplicável sucesso de Bohemian Rhapsody (2018) tivemos uma grande leva de filmes contando a história de personalidades da música das maneiras mais diversas o possível. Assim, ao saber que haveria um filme do gênero dentro da competição do Festival de Berlim, já se gera uma curiosidade em qual seria o aspecto dessa obra que a diferencia de tudo o que já foi produzido e chamou a atenção dos curadores.

Já nos primeiros momentos do filme se compreende a escolha. Temos uma primeira cena do Bill Evans Trio (formado em conjunto com o baixista Scott LaFaro e o baterista Paul Motian) tocando em sua performance mais famosa, mas isso é abordado cinematograficamente de maneira visualmente bastante distinta. Entre ângulos inesperados e planos extremamente aproximados dos instrumentos sendo tocados, percebe-se que a estilização será ponto chave da abordagem do filme, o que já o diferencia das muitas obras existentes que pensam apenas em uma linha do tempo com fatos a serem apresentados de uma maneira que tenta ser apolítica e amoral.

Aqui, mergulha-se em um momento mais específico na vida do pianista, quando 10 dias após a gravação de seu LP de grande sucesso, o baixista Scott LaFaro morre em um acidente de carro. Mas o foco é na figura de Evans e em como esse acontecimento afeta a sua vida, impedindo-o de conseguir se apresentar novamente nos palcos e o levando a um período depressivo tenso, envolvendo também a sua dependência em cocaína e heroína, e seu relacionamento com Ellaine Schultz. Há também algumas inserções sobre o futuro de Evans, mas tenta-se manter ao máximo dentro desse período de tempo delimitado, o que ajuda na construção de uma narrativa que caiba em um filme, não se excedendo e apenas falando superficialmente sobre os variados assuntos.

Grant Gee aproveita a sua experiência com documentários sobre música e videoclipes para estilizar ao máximo toda a experiência cinematográfica. O que vemos naquela primeira cena irá se repetir ao longo de todo o filme, seja através de sua fotografia em preto e branco que se contrasta a alguns poucos momentos coloridos, ou até pelo uso desses ângulos inesperados mas que parecem ajudar forma e conteúdo a se conversarem dentro do filme. Se por um lado existe esse filme visualmente inesquecível, por outras essa técnica acaba se sobressaindo à história, o que gera certo incômodo a quem assiste. Ao mesmo tempo em que isso acontece, ele também sabe controlar muito bem as cenas de diálogos, por exemplo em relação ao comportamento de Evans com seu pai. Apesar de terem uma boa relação, seu relacionamento é preenchido pelos silêncios que também explicam bastante do vazio presente no pianista. É uma forma bastante sofisticada de colocar o funcionamento do patriarcado em tela.

No entanto, ao fim da obra, somos obrigados a nos lembrar que o homem que o filme apresenta é realmente o motor dessa história. Não sabemos quase nada sobre nenhuma das personagens femininas apresentadas, além de suas relações tóxicas com Evans. Nem ao menos conseguimos um aprofundamento psicológico mais aprofundado dele, para além da questão da dualidade entre genialidade e vícios que já foi tão explorada dentro da história do cinema e das artes.

O filme reluz, mas não é ouro – talvez seja banhado à ouro. Essa forma maravilhosa retrata uma figura muito cara à comunidade do jazz, e até consegue propor algumas discussões mais substanciais, sem tempo de levá-las à frente.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima