Crítica | 76º Festival de Berlim | Moscas

Moscas (México, 2026)

​Título Original: Moscas
Direção: Fernando Eimbcke
Roteiro: Fernando Eimbcke e Vanesa Garnica
Elenco Principal: Teresa Sánchez, Bastián Escobar, Hugo Ramirez
Duração: 99 minutos

Quando Moscas se inicia, existe uma boa dose de drama misturado com comédia presente no quadro. A primeira informação que temos é, com uma tela preta, o som de uma mosca que não está permitindo que Olga (Teresita Sánchez) durma, algo que qualquer pessoa de qualquer país latino vai conseguir se relacionar. Quando começamos a seguir o seu dia a dia, compreendemos que ela é a versão feminina de um arquétipo bastante utilizado em personagens masculinos: alguém mais velha, sem muitos laços familiares ou de amizade, que está confortável em viver sua vida austera. Já nas primeiras cenas, compreendemos perfeitamente o seu funcionamento, das notícias do ICE nos EUA na TV contrastando com o calendário de geladeira de 1986 jamais removido

No entanto, percebendo que seu dinheiro já não dá conta das suas obrigações, ela decide alugar o segundo quarto da casa para Tulio (Hugo Ramírez), que por sua vez coloca seu filho Cristian (Bastian Escobar) de maneira irregular na habitação. A esposa de Tulio está passando pela quimioterapia em um hospital próximo e eles desejam estar o mais próximos o possível. Se tudo isso parece uma explicação excessiva da sinopse da obra, na verdade este é apenas o pretexto de base da narrativa que Fernando Eimbcke utiliza para falar sobre processos de luto e transformações na vida das pessoas.

A melhor palavra para descrever o longa é a sensibilidade. Em uma primeira instância, isso pode ser percebido pelo seu próprio roteiro, que vai falar sobre a adaptabilidade das pessoas às grandes e pequenas mudanças da vida (que podem ser simplesmente o desafio de vencer um jogo de fliperama). Mas ela está presente em muito mais do que isso, com detalhes que vão desde o uso de enquadramentos que vêm a cidade através do olhar de uma criança, até elementos mais complexos como a escolha de como lidar com as perdas que se tem na vida. Existe uma noção com a qual brasileiros conseguem se relacionar muito bem que é da preservação de esperanças e na capacidade de fazer limonadas com os limões entregues pela vida.

O que é mais interessante é que é a forma fílmica que ajuda o roteiro a não se permitir cair nos caminhos menos complexos do melodrama. Ao brincar com a repetição de cenas, com a alegria anárquica da criança mediante à autoridade até na sua ilusão de controle quando está jogando seu fliperama, ele está sempre contrapondo com as imagens do hospital, da solidão da mulher jogando sudoku no computador, à dificuldade em comprar todos os remédios necessários para tratar da mãe. Isso vai criando o tecido necessário para que se compreenda melhor quem são aqueles personagens, mesmo que muitas vezes as palavras ou diálogos se tornem desnecessários. O mesmo acontece com a cor: utiliza-se um preto e branco com pouco contraste, dando a noção da repetição dessa história, mas quando necessário, os close-ups conseguem dar conta de toda a emoção que é necessária.

No fim das contas, entendemos que as moscas sempre estarão presentes na casa, assim como um menino sempre será um menino e as tragédias continuarão a acontecer, não importa com quem. O recado quase piegas de que o importante na vida é poder vivê-la consegue encontrar um modo simples de se colocar em tela.

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