Queen at sea (Reino Unido, Estados Unidos, 2026)
Título Original: Queen at Sea
Direção: Lance Hammer
Roteiro: Lance Hammer
Elenco principal: Juliette Binoche, Tom Courtenay, Anna Calder-Marshall, Florence Hunt, Steven Cree, Joe Horsford
Duração: 121 minutos
Nos últimos anos, até por conta do aumento da longevidade das pessoas, os casos de algum tipo de demência têm se tornado cada vez mais comuns. E, como normalmente acontece, as artes acompanham as novas questões da humanidade, discutindo e ajudando a compreender e digerir alguns dos sentimentos e até discussões éticas associadas aos novos desafios. O cinema, por sua popularidade, é particularmente ágil nessa função, e vemos filmes como Meu Pai (2020) e Amor (2012) sendo muito citados como obras que retratam esse adoecer. Queen at Sea, por sua vez, dá um passo além na discussão sobre as pessoas ao redor daquela adoecida e seus dilemas éticos e morais.

Lendo sobre o diretor Lance Hammer, que teve um hiato de 18 anos entre seu primeiro e premiado filme Ballast (2008) e o lançamento deste, percebe-se que esse dilema moral realmente foi algo que o perseguiu até o momento em que ele decidiu aceitar e escrever o filme sobre a questão que tanto lhe incomodava. Ele passou alguns anos após a escrita de seu primeiro filme em um processo de tentar escrever algo comercialmente viável, mas logo desistiu por conta das imposições do mercado cinematográfico estadunidense. Entretanto, ele afirmou em entrevistas que a questão da discussão ética da demência e consentimento estava aparecendo em diversos momentos, mesmo não tendo ninguém próximo a si na situação. Assim, surge a ideia para o filme que, ao longo de muitos anos e negociações, se torna o longa-metragem que foi apresentado na mostra competitiva do festival.
Começamos o filme com uma cena bastante impactante. Amanda (Juliette Binoche) chega na casa de sua mãe, Leslie (Anna Calder-Marshall), e se depara com o padrasto Martin (Tom Courtenay) e ela tendo relações sexuais. Percebemos que há algo de errado, e logo entendemos: Leslie tem alguma espécie de demência, e Amanda considera a situação um estupro pela incapacidade da mãe de conceder um consentimento. A cena, em si, é desagradável de assistir, justamente por uma atuação de Calder cujo vazio no olhar cria esse desconforto em relação ao quanto ela está presente ali. Amanda chama a polícia, a situação acaba se tornando algo criminal, e fica o questionamento se, como afirma Martin, ela que o buscou para o sexo, ele estaria fazendo algo que merece tal julgamento.
Pela maior parte de sua duração, o filme realmente irá tratar dessas questões de forma delicada e com o foco no equilíbrio entre a sexualidade de pessoas idosas, consentimento e cuidados com uma pessoa com demência. Ocasionalmente, a questão também se espalha para a família dos cuidadores, especificamente Amanda e sua filha Sara (Florence Hunt), que têm sua vida em Newcastle mudada para Londres para estarem mais próximas de Leslie. O filme cria as suas próprias soluções de roteiro sem deixar as discussões excessivamente explícitas, mas também pesa o clima em seu encerramento, que é deveras apressado considerando o seu andamento. Mas a questão incômoda realmente segue com o espectador justamente como ela seguiu com o diretor e roteirista ao primeiro se deparar com ela. Ou seja, o seu efeito de expandir a discussão consegue ser alcançado.
Além de um roteiro com bastante espaço para o questionamento, o que faz com que o filme funcione tão bem é a dupla de atores selecionados, Anna Calder-Marshall e Tom Courtenay. Atores britânicos que já contracenaram juntos no teatro, eles conseguem transmitir o tipo de companheirismo necessário para que se creia que Martin realmente acredita estar fazendo a coisa certa. Existe uma cena que resume perfeitamente a situação: Leslie está em um momento não-verbal, mas Martin segue conversando com ela e demonstrando o afeto e carinho pela sua esposa de muitos anos. Ela, presa entre o momento real e sua memória, mal consegue reagir, mas deixa claro que tem sentimentos fortes por aquele homem. É até difícil de assistir de tão doloroso, mas é aquele momento sublime no qual a atuação é tão realista que cremos completamente na existência real desses personagens fictícios. A premiação da dupla na categoria de atuação do festival não poderia ser mais acertada.
Sem muito espaço para sentimentalismos e reflexões pessoais, o longa está mais interessado em lidar com questões reais e urgentes que geram um incômodo, mas que precisam ser endereçadas para serem compreendidas. Claro, como uma pessoa que lidou com a perda de uma pessoa querida para a demência, minha visão se torna muito sentimental, mas a universalidade da proposta é justamente o que a difere dos muitos filmes sobre o assunto que já foram produzidos.




