Rosebush Pruning (Alemanha, Itália, Espanha, Reino Unido e EUA, 2026)
Título Original: Rosebush PruningDireção: Karim Aïnouz
Roteiro: Efthimis Filippou (adaptado livremente de “I pugni in tasca”, de Marco Bellocchio)
Elenco principal: Callum Turner, Riley Keough, Elle Fanning, Jamie Bell, Pamela Anderson, Lukas Gage, Tracy Letts, Elena Anaya
Duração: 125 minutos
Em um ano em que não havia nenhuma produção brasileira na mostra competitiva do Festival de Berlim, a solução para os mais ufanistas seria buscar ao menos um filme que foi dirigido por um brasileiro, Karim Aïnouz. O segundo longa-metragem em língua inglesa do diretor, no entanto, talvez tenha sido um com as recepções mais mistas de toda a mostra competitiva principal.

Na obra, temos uma família bilionária que vive reclusa em uma villa espanhola após uma morte violenta da mãe. Sob o comando de um pai cego e abusivo (Tracy Letts), os quatro filhos vivem em uma dinâmica familiar que desafia as famílias mais disfuncionais da ficção, mas que consegue permanecer em um certo equilíbrio. Entretanto, este equilíbrio é rompido quando o filho mais velho, Jack (Jamie Bell) anuncia que irá sair da casa para morar com a sua namorada Martha (Elle Fanning).
O roteiro do longa é uma adaptação pós-moderna de Efthimis Filippou de De Punhos Cerrados (1965), de Marco Belolocchio. Se no filme original se fala sobre uma família burguesa italiana para trazer uma discussão sobre o capitalismo e o patriarcado, o roteirista que ficou famoso por sua parceria com Yorgos Lanthimos (O Lagosta, Dente Canino) traz essa discussão para o século XXI, falando sobre o consumismo exagerado e o sucesso de um modelo patriarcal dentro do capitalismo. Com uma adaptação bem livre do texto original, o hermetismo do roteirista também aparece como uma característica bem marcante, com algumas cenas, como a que dá início ao filme, parecendo misteriosas até que a trama se desenvolva e todos os pontos se conectem.
O que chama mais atenção na obra é essa visão bastante ácida sobre o funcionamento e motivações dos super-ricos. A falta de contato com a realidade fora daquela mansão, a inversão de valores e os personagens realmente desagradáveis aparecem como elementos importantes para a compreensão de um universo normalmente bastante distante das pessoas que o assistem. Mas o que é realizado é uma sátira política levada às últimas consequências, o que faz com que parte dos espectadores se torne realmente distanciado dos acontecimentos. Há um exagero proposital, que relembra o conceito de “comam os ricos”, o slogan político que lembra o tamanho da desigualdade de renda de forma a gerar desconforto e mobilização. Assim, é importante colocar a importância do desconforto em toda essa experiência cinematográfica, ainda que haja uma camada importante de humor associada ao diretor.
Quando pensamos em toda a estrutura do filme, cujo título traduzido para o português está falando sobre a poda das roseiras necessária para que a planta se fortifique e se criem novas florações, é impossível não associar isso aos acontecimentos do filme. Mesmo que em um primeiro momento sua crítica pareça mais superficial, quando todos os elementos da obra são colocados em conta, temos a história de como o modelo capitalista é capaz de continuar se reproduzindo em uma sociedade que se torna cada vez mais doente. Ele opta pelo choque para trazer essa noção, mas em um momento em que poucas coisas são capazes de fazer com que os indivíduos prestem atenção em uma manifestação artística, talvez essa seja uma das opções mais plausíveis.
Para continuar o debate sobre o filme, recomendo assistir à entrevista que realizei com o diretor: https://youtu.be/nP8peChmxnA




