Salvation (Turquia, 2026)
Título Original: Kurtuluş
Direção: Emin Alper
Roteiro: Emin Alper
Elenco principal: Caner Cindoruk, Berkay Ateş, Feyyaz Duman, Naz Göktan
Duração: 120 minutos
Assistir a Salvation esperando que em algum momento o filme tome um caminho específico e cite nomes ou situações reais como eu fiz é um grande erro. O filme do diretor turco Emir Alper está muito mais interessado em fazer uma exploração teórica de como se forma a violência e o fanatismo religioso do que em falar sobre especificidades, e ainda que isso gere uma confusão inicial, na verdade faz muito mais sentido quando pensamos na universalização de um tema que, em pleno 2026, segue sendo muito presente na geopolítica internacional com cada vez mais guerras se fazendo presentes nos noticiários.

No filme, temos um pequeno clã que vive em uma região montanhosa da Turquia e se vê ameaçado quando o clã rival, os Bazeri, retornam de um período de exílio. Esses moradores locais se sentem ameaçados e passa a ser foco de suas conversas o que poderia acontecer agora que aconteceu esse retorno, principalmente porque parte dos terrenos nos quais eles fizeram seu plantio pertencia inicialmente ao outro clã. Os boatos começam a aumentar, falando sobre uma criança que foi morta por um rival, assim como o seu hábito de matar mulheres e estuprar os seus cadáveres. A sensação de paranoia rapidamente se instaura.
Nesse contexto, somos apresentados a Mesut (Caner Cindoruk) e aos seus conflitos internos. Ele tem uma mulher grávida, um filho que profere ditados enquanto sonâmbulo e uma relação muito mal resolvida com o irmão, o Sheikh Ferit (Feyyaz Duman), que herda da família o título de líder religioso e político a despeito de ser o irmão mais novo. Em uma posição bastante complexa dentro desse cenário patriarcal, há um grande foco em suas ações no sentido do fecho do cerco de um fanatismo religioso.
Além disso, o filme trabalha muito bem nos detalhes de diferenciar as relações e os espaços de convivência entre homens e mulheres nessa sociedade, colocando as crianças como alguns dos poucos personagens que conseguem ter uma circulação pelos dois ambientes. Enquanto as mulheres conversam enquanto fazem seus afazeres dos dia a dia, existe pouca possibilidade de convívio para os homens, vistos normalmente falando baixo um com os outros de maneira quase escondida. A fotografia do filme dialoga com isso, criando espaços abertos para posicionar as mulheres, mesmo que elas não tenham os mesmos direitos do que os homens, enquanto a maioria dos homens conversa em espaços mais fechados e claustrofóbicos. De forma interessante, ele ainda acrescenta um plano conjunto raro dos dois irmãos justamente enquanto eles falam sobre a existência de Caim e Abel, os gêmeos, e os seus simbolismos como bem e mal. Ainda pensando na fotografia e até no som do longa, é um belo destaque a forma que os ritos religiosos são trazidos, dando uma visão rara sobre o que acontece dentro dessas reuniões fechadas.
Pouco a pouco, cena a cena, vai se compreendendo que o filme trata a violência como uma construção daquele espaço e tempo, mas também de toda uma universalidade de como se trata o que somos nós versus o que são eles. O clima de suspense vai se elevando a cada momento, e no final do longa temos a culminação de tudo aquilo que foi se construindo ao longo do tempo, mesmo que nós inicialmente tenhamos criado até certa simpatia por aqueles personagens. É um bom lembrete que não importa se esse é um conflito que acontece entre Ucrânia e Rússia, Israel e Palestina, EUA e Irã: a violência é uma construção humana, muito centrada na desinformação e no medo.



