We Are All Strangers (Singapura, 2026)
Título Original: 我们不是陌生人 (Wo Men Bu Shi Mo Sheng Ren)
Direção: Anthony Chen
Roteiro: Anthony Chen
Elenco principal: Yeo Yann Yann, Koh Jia Ler, Andi Lim, Regene Lim
Duração: 157 minutos
O meu desconhecimento de quem é Anthony Chen até o momento em que me deparo com We Are All Strangers é um bom indicativo de como o mercado brasileiro dá pouco espaço para os diretores asiáticos. Apenas realizando a pesquisa para escrever este texto que descobri que a obra é parte de uma trilogia que se iniciou em 2013 com Quando Meus Pais Não Estão em Casa, vencedor da Caméra d’Or no Festival de Cannes daquele ano. Ainda que um filme só deva ser pensado individualmente, conhecer essa trilogia e tê-la assistido talvez criasse algum contexto extra sobre questões que não me ficaram muito claras, como qual o recorte que o diretor escolhe para o longa-metragem.

Em sua primeira cena, vemos um homem fazendo a preparação de noodles em um wok. Desde a limpeza dos camarões, a preparação dos ingredientes e o preparo da comida, a cena poderia ser até uma peça de propaganda para um prato em específico. No entanto, logo descobrimos que esta é apenas uma apresentação do pai do protagonista Junyang (Koh Jia Ler). Isso acontece diversas vezes com diversos personagens, sendo até desafiador compreender qual é a linha que a narrativa irá seguir. Aos poucos, compreendemos que o eixo principal é de Junyang e sua namorada Lydia (Regene Lim), que passarão por uma gravidez na adolescência. Como esse é um acontecimento incomum dentro da sociedade singapurense, compreendemos que este será o eixo, mas ao mesmo tempo temos uma infinidade de subtramas acontecendo. Da relação conturbada de Lydia com a mãe e com sua religião cristã, do casamento do pai de Junyang e até mesmo da vida financeira de sua madrasta, somos expostos a uma aula intensiva do funcionamento da sociedade do país.
O que mais chama a atenção de uma espectadora brasileira assistindo ao filme é a necessidade que ele tem de seguir um longo período de tempo, mostrando flutuações na vida que parecem ocorrer ao longo de anos – e seu desejo de mostrar esses fatos detalhadamente. Talvez em uma obra que não tivesse personagens tão carismáticos ou um ritmo tão bem pensado para não se tornar cansativo, isso seria um grande problema. Aqui, no entanto, o que causa maior desconforto é a sua capacidade de rapidamente descartar alguns personagens e fatos que parecem ser esquecidos por algum período, apenas para serem retomados um bom tempo depois. Existe também um forte elemento de melodrama, mas ele está tão atrelado a essa narrativa de afeto familiar que é retomada a todo momento do filme que compreende-se porque a escolha de lidar com os exageros.
Algo que o diretor e roteirista consegue inserir muito bem dentro da narrativa são alguns detalhes sobre a cultura de Singapura que talvez sejam desconhecidos para um público internacional. Desde seus conflitos internacionais, até suas rotas migratórias e questões como a falta de regulamentação em redes sociais, todos os elementos vão sendo inseridos no filme de maneira leve e pouco expositiva. Essa é uma tarefa complexa, ainda mais considerando a quantidade de elementos que já estão na narrativa base da obra.
Assim, por mais que ele tenha uma longa duração, ela não é tão sentida pelo público que está dentro da sala de cinema. E, mesmo com seus exageros, é um filme cujos personagens permanecem com o espectador muito depois que se acendem as luzes da sala.




