Crítica | Eles Vão Te Matar

Eles Vão Te Matar (EUA, África do Sul, 2026)

Título Original: They Will Kill You
​Direção: Kirill Sokolov
Roteiro: Kirill Sokolov, Alex Litvak
Elenco principal: Zazie Beetz, Myha’la, Paterson Joseph, Tom Felton, Heather Graham, Patricia Arquette
Duração: 89 min
Distribuição: Warner Bros. Pictures

A premissa é simples: eles vão te matar. Assim que iniciamos o filme com uma cena de duas irmãs em fuga, tentando escapar de um pai abusivo, e que termina com uma delas, Asia (Zazie Beetz) indo para a cadeia. Como em um prólogo de demo de videogame, é apenas em seguida que se inicia a real trama do longa. Após sair da cadeia, Asia aceita um emprego como governanta em um prédio de luxo de Nova Iorque, o The Virgil, e descobre que ali nada é o que parece, entrando em uma espiral de loucura, sangue e pessoas ricas malucas.

Ainda que essa sinopse pareça entregar demais sobre o filme, na realidade este é o tipo de filme no qual a trama acaba sendo apenas uma desculpa para o andamento de cenas de ação bem coreografadas. A trama, por mais que até entregue um ponto sobre a amizade entre irmãs e a mensagem básica de que o capitalismo é o grande vilão da sociedade, é quase irrelevante. Para quem busca um filme que vá explorar pormenores da exploração do trabalhador pelos detentores do meio de produção, ou até mesmo uma visão aprofundada sobre o racismo nos EUA contemporâneos, pode ser decepcionante chegar à obra e perceber que ela apenas utiliza esses tópicos quase levianamente.

O filme é muito mais sobre estilo formal, com cenas altamente ensaiadas e coreografadas dando reviravoltas inesperadas e se tornando cada vez mais maluco. Entre decapitações, partes de corpo que perseguem personagens e todo e qualquer tipo de violência, ele consegue cativar o espectador menos sensível e até diverti-lo. Ele aproveita a estética camp e o humor cáustico e os leva até os extremos, em uma ousadia que também não tem sido vista nas telas grandes. Talvez por conta da pandemia e os seus reflexos no público de cinemas, ou apenas por uma movimentação natural do mercado estadunidense, parece que estamos em um período de certa estagnação criativa, com poucos projetos que se levam pouco a sério. É engraçado que o filme seja uma produção estadunidense apoiada por cineastas argentinos, com um diretor russo e gravado da África do Sul: é a globalização atuando como fator importante para que projetos criativos possam sair do papel.

Justamente por depender tanto da estética que esta se torna um elemento essencial para a obra. Percebemos isso a partir de dois pontos de vista: o da direção de arte e o das cenas de ação. Na direção de arte, conseguimos perceber o quanto cada um dos elementos colocados em cena foi realmente pensado para maximizar a diversão e o efeito estético. Dos figurinos retrôs dos trabalhadores do edifício até o uso de penas ou de chuva para ironizar o efeito dramático, tudo é colocado neste sentido de expandir a experiência sensorial dos espectadores. Apesar de ainda não sabermos o quanto dos efeitos especiais são visuais e o quanto são práticos, tudo funciona nessa chave do exagero, o que permite que as cenas mais absurdas ainda façam sentido dentro da lógica interna do longa.

Dentro disso, as cenas de ação também são maximizadas. Além da clara coreografia necessária para o funcionamento do filme, também existe todo um balé da câmera, que ainda que seja estável, está sempre perseguindo a personagem principal em suas desventuras. Neste sentido, é quase como um jogo de videogame em terceira pessoa, mas ao invés de acompanharmos apenas as costas da personagem, estamos sempre a vendo por seu ângulo mais interessante para aquela ação em específico. Como se pode imaginar, muito do filme funciona por conta de Zazie Beetz, que faz um trabalho excelente em nos carregar nessa montanha russa de emoções e acontecimentos. Felizmente, ela tem carisma e estamina de sobra.

A obra funciona muito bem para um nicho específico, mas certamente diverte qualquer pessoa que entre no cinema desavisada. Em um mar de produções que se levam a sério demais, ela ganha seus espectadores por sua descontração.

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