Crítica | Livros Restantes

Livros Restantes (Brasil, Portugal, 2025)

Título Original: Livros Restantes
​Direção: Marcia Paraiso
​Roteiro: Marcia Paraiso
​Elenco principal: Denise Fraga, Augusto Madeira, Renato Turnes, Vanderleia Will
​Duração: 105 minutos
​Distribuição: H2O Films

É de se admirar o trabalho de atores e atrizes do cinema nacional que se empenham com tanto afinco a cada trabalho que individual, que acabam por criar conversas entre suas performances mesmo quando seus filmes são completamente distintos. Talvez Sonhar com Leões, de Paolo Marinou-Blanco, e Livros Restantes, de Márcia Paraíso, nem sejam tão distantes assim, mas o elo que os une, e que se chama Denise Fraga, cria experiências de catarses e emoções distintas, pois se o primeiro é uma comédia ácida e irônica sobre o desânimo pela vida, o segundo pulsa o desejo pela existência e pelo prestar de contas com a vida como forma de auto-empoderamento.

E gosto de pensar como Livros Restantes parte de um princípio que pouco diz sobre para onde o filme irá em seus quase 100 minutos de duração: Denise é Ana, uma professora que está prestes a se mudar para Portugal, e que após se livrar de muitos bens materiais, acaba se vendo com os últimos cinco livros de sua estante e que deseja devolver às pessoas que lhe deram de presente. Esse movimento de Ana a faz dar de cara com acontecimentos de seu passado que se tornam uma espécie de acerto de contas com pessoas, lembranças, conflitos e desejos.

O desejo de devolução dos livros, que inicialmente é um artifício para elevar o ritmo do filme e seus conflitos, logo dá lugar a dramas de Ana com sua família que se desenham por si só, como conflitos do irmão de Ana com sua sexualidade (a cena na cozinha com a mãe é belíssima), ou o forte momento em que a protagonista revela um abuso sexual cometido por um parente quando ainda criança. Os livros na prateleira de Ana logo se assumem como artifícios estimulantes da memória, dos reencontros, onde cada acerto de contas trará para Ana os mais diferentes sentimentos e, nesse processo, a protagonista vai gradativamente construindo uma autonomia que perpassa, inclusive, o explorar da sua sexualidade ao dormir com um amigo, sem medo do desejo. Livros Restantes é sobre (re)conhecer os outros para (re)conhecer a nós mesmos.

Sabendo que a jornada de Ana também se desenha através de encontros e desencontros com as pessoas que marcaram e fizeram parte da sua vida, o roteiro também de Márcia Paraíso desenha alguns dos personagens coadjuvantes mais radiantes de um filme nacional que podemos ver este ano. Augusto Madeira, como o ex-marido de Ana, Renato Turnes, Manuela Campagna, Vanderléia Will. Esses nomes que compõem os encontros e reencontros de Ana através de tipos de que poderiam fazer parte da família de qualquer família brasileira com suas idas e vindas, e que sempre carregam consigo o calor da vivência de vidas que foram nascendo e se construindo juntas.

Talvez Livros Restantes só se esqueça rapidamente desse elemento presente, as histórias guardadas pela literatura, como catalisador do reencontro de Ana com seu passado e presente para vislumbrar o futuro. A presença dos livros começa a perder força quando o filme vai amontoando seus temas familiares, nem todos resolvidos a contento. E quando a devolução do último livro acontece, é como se esse elemento tivesse chegado com menos força ao final da narrativa do que quando se apresentou no início dela.

Mas que grande ano para Denise Fraga. A atriz faz seus dois filmes de 2025, este e o já citado Sonhar com Leões, conversarem através das performances intensas que, em cada filme, encarna mulheres com visões particulares sobre a vida e o encarar dela. No caso de Livros Restantes, temos um filme que é uma ode ao passado e ao que você é no presente, e como tudo isso pode lhe dar todo potencial para reconstruir seu futuro a qualquer momento. Lindo, lindo filme.

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