Crítica | O Castigo

O Castigo (Chile, Argentina, 2025)

Título Original: El Castigo
​Direção: Matías Bize
​Roteiro: Coral Cruz
​Elenco principal: Antonia Zegers, Néstor Cantillana, Catalina Saavedra, Yair Juri​ e Santiago Urbina
Duração: 86 minutos
​Distribuição: Filmes do Estação

O Castigo começa como um filme que parece algo, mas gradativamente mostra que não é aquilo que esperávamos. Quando nos contextualiza como uma história sobre o desaparecimento do filho de um casal, o diretor Matías Bize, com toda a paciência que lhe é de direito, vai transmutando seu filme para um terreno mais pessoal e culposo: estamos diante de um melodrama psicológico, vivido em tempo real sobre matrimônio e culpa, enquanto sentimentos vão sendo desnudos com um rigor formal que encontra na filmagem em plano-sequência não um movimento de exibicionismo, mas como um elemento dramático por si só.

Nessa escolha de filmar seus pouco mais de 80 minutos num plano-sequência e que investiga pouquíssimos espaços da floresta que cerca os personagens, a câmera de Bize e do diretor de fotografia Gabriel Diaz prendem o espectador nessa experiência na qual até a ausência de informações se faz importante para a imersão. Isso nos mergulha no desconforto e no desespero da espera daqueles pais pelo reaparecimento de seu filho que sumiu na floresta. Para Bize e Diaz, não há espaços para nenhuma elipse que alivie a tensão e nem o caos emocional que se instaura. Os tempos mortos tradicionais não existem em O Castigo. No lugar disso, a narrativa se dá direito a momentos em que “nada acontece” do ponto de vista da investigação e do mistério, e estes são os momentos onde a direção demonstra um grande nível de controle sobre até onde vai a externalização dos sentimentos dos personagens. Frustração e culpa são sentimentos que crescem no silêncio do filme.

Dentro dessa proposta de contenção, seja de cenários, seja de diálogos, é que Antonia Zegers, como a mãe do garoto desaparecido, entrega uma atuação extraordinária. A atriz vai nos dizer o que é preciso sobre aquela mãe pelos detalhes: os olhares, as pausas, as entonações, que culminam num dos monólogos mais poderosos que poderemos ver no cinema este ano. Evitando excessos emocionais, mas jamais permitindo que a apatia de sua personagem diante da situação se torne um motivo de afastamento emocional com o público, Zegers faz do que parece pequeno em algo que toma proporções avassaladoras de sua boca. No já mencionado monólogo, seus poucos minutos organizam nossa compreensão da personagem e, consequentemente, sobre todo o filme até ali. Uma confissão: assisti ao filme em casa, numa cabine online, e fiz questão de rever a cena pelo menos três vezes. Fico aqui pensando então na sua força numa tela de cinema.

Sobre Bize, o diretor demonstra, como de costume em sua filmografia, uma obsessão por filmes cuja estrutura se desmonta e ressignifica conforme o andar da carruagem – A Vida dos Peixes e Memória da Água são ótimos exemplos disso. Pequenas reviravoltas vão acontecendo e alterando nossa percepção sobre aquela situação-limite, mesmo que, em algum momento, dê-se a impressão de que o diretor acaba reiterando pontos mais vezes do que deveria, causando uma pequena trave na narrativa. Não é algo que comprometa o impacto emocional, contudo. A recusa pela catarse emocional tradicional segue como um compromisso inegociável para Bize.

Claro que, dentro de um plano-sequência tão longo e que toma a narrativa por completo, as marcações inevitavelmente se tornam óbvias em alguns momentos, assim como sua coreografia. Mas novamente, é um recurso que funciona muito bem como essa potencialização radical do realismo num filme que justifica essa busca, como se enquanto os pais da criança não puderem sair daquela situação, nós não poderemos sair também.

O Castigo é um filme de escalas econômicas, mas que encontra sua principal força dramática justamente nesta proposta, na progressão cuidadosa, no compartilhar de tantos sentimentos guardados a sete chaves em prol do bem familiar nas aparências de uma família há muito tempo machucada. Na simplicidade, Bize faz um filme cortante e profundamente humano.

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