O Drama (EUA, 2026)
Título Original: The Drama
Direção: Kristoffer Borgli
Roteiro: Kristoffer Borgli
Elenco principal: Zendaya, Robert Pattinson, Mamoudou Athie, Alana Haim, Hailey Gates
Duração: 1h 46min
Distribuição: Diamond Films
Utilizar dois atores que marcaram gerações como Zendaya, que começou a carreira como atriz da Disney e depois passou aos filmes blockbusters hollywoodianos, e Robert Pattinson, eternizado pelo papel de Edward em Crepúsculo e depois trabalhou com nomes como David Cronenberg, é uma técnica interessante para chamar a atenção do público para um filme. Colocá-los na página de anúncios de casamentos de um jornal de grande circulação nos EUA foi uma jogada de marketing pela qual a A24 provavelmente ainda será falada por muitos anos dentro do mercado publicitário.

Isso é somado a um trailer que diz pouquíssimo sobre a obra além do fato de ser um casal que está prestes a se casar e que, quando um deles descobre algo horrível sobre o passado do outro, esse casamento acaba ficando em risco. É de se entender que toda a dinâmica do filme depende de um grande plot twist, que provavelmente estará explicado e insinuado em diversos vídeos na internet. Mas, quando damos um passo para além das ações de marketing, o que sobra no filme?
Kristoffer Borgli é um diretor que está nos acostumando ao desconforto. Entre O Homem dos Sonhos e Doente de Mim Mesma, suas críticas à sociedade hipermoderna não passam despercebidas, assim como a exploração sobre as áreas cinzas da moralidade. Se no primeiro filme ele estava lidando com os limites da mercantilização do ser humano e no segundo sobre a vitimização como tática de sobrevivência moderna, agora ele explora um pouco dos limites da conexão entre as pessoas, assim como o questionamento se a intenção de um crime pode ser considerada um crime por si só. Mais do que isso, ele coloca essa questão de forma tão naturalista dentro da estrutura do filme que acabamos refletindo sobre os nossos momentos mais obscuros e os nossos próprios limites.
O casting do filme é realizado de maneira perfeita para complementar a questão. Se temos Robert Pattinson retornando ao seu sotaque inglês e criando esse personagem ao mesmo tempo neurótico e buscando a validação externa a todos os momentos, também temos uma Zendaya muito mais vulnerável do que na maioria de seus papeis. A primeira cena do filme, que mostra como os dois se conheceram, já coloca um certo desconforto antes mesmo da verdade sobre o passado ser colocada à prova; seu primeiro plano é um close da orelha de Emma (Zendaya), uma imagem bem incomum para começar um filme.
Entrando para uma discussão COM SPOILERS, o filme tenta se aprofundar em questões bastante sensíveis aos EUA no momento, mas de maneira mais indireta. Em primeiro lugar, o filme nunca coloca isso em texto, mas subentende-se o caráter de racismo para a situação de Emma crescendo em um estado historicamente conservador. E mais do que isso, ele toca em toda uma questão da cultura de armas do país, cujos números de tiroteios continuam em ascensão, e ainda em um estado no qual o porte de armas é permitido sem muita complexidade para aquisição. Ter um diretor norueguês olhando para essas questões é particularmente incômodo, o que pode gerar até reações mais vigorosas do público do país. Mas o que o filme consegue fazer, sem desrespeitar vítimas de tragédias nem criar uma história muito fora da realidade, é falar sobre como existem pesos e medidas diferentes para falar sobre o porte de armas. E mais do que isso, ele consegue encarar toda a dissimulação associada ao tema, com personagens que representam arquétipos óbvios, diretos e até irritantes sobre como as pessoas reagem ao tema.
É até irônico o quanto o filme gosta de colocar o dedo nessa ferida, mas o faz com uma roupagem de técnica clássica de cinema e esses atores extremamente talentosos como um chamariz para um questionamento bastante profundo. É até um pouco triste saber que a maior parte das pessoas que assistirá ao filme nos cinemas acabará tendo uma experiência diferente, dado que possivelmente spoilers sobre o filme estarão disponíveis a um clique de distância assim que o embargo de críticas cair.




