Crítica | Orwell: 2+2=5

Orwell: 2+2=5 (EUA, 2025)
Título Original: Orwell: 2+2=5
Direção: Raoul Peck
Roteiro: Raoul Peck
Elenco principal: Damian Lewis
Duração: 119 minutos
Distribuição brasileira: Alpha Filmes

A figura de George Orwell, pseudônimo de Eric Arthur Blair, sempre esteve atrelada a polêmicas e opiniões divergentes. Há pessoas na esquerda que defendem o seu trabalho com unhas e dentes, há pessoas na direita que insistem que 1984 é um manifesto anti-comunista e há pessoas mais próximas ao centro que interpretam o texto com um aviso sobre os extremos.
Raoul Peck é um cineasta conhecido por filmes que não tem medo de se posicionar à esquerda da esquerda e que já filmou a vida de figuras como Lumumba e Marx. A sua escolha de escrever, produzir e dirigir um documentário sobre Orwell é, no mínimo, instigante.


Orwell: 2+2=5 parte do viés anti-totalitarista da obra de Orwell, com destaque para os seus livros mais conhecidos: Fazenda dos Animais (ou, no título popularizado pela ditadura empresarial-militar brasileira: A Revolução dos Bichos) e 1984, para falar sobre o colapso de uma sociedade que sofre com um capitalismo tardio morimbundo enquanto um ainda abstrato “novo” não chega para tomar seu lugar.


Até certo ponto, o filme tem sucesso em passar sua mensagem anti-fascista e expor muito do que está errado no mundo ainda em 2025, sua data de produção. Peck traz imagens de guerras e catástrofes causadas por ações humanas em uma tentativa de ilustrar ao espectador o resultado de anos e anos de um modus vivendi que só poderia nos levar ao que vemos na tela.


A questão é que o filme tenta abordar tanta coisa que acaba não aprofundando nada. Imagens da guerra na Ucrânia são mostradas em paralelo a imagens da destruição no Iêmen e em Gaza sem muita distinção de contexto ou qualquer forma de verticalização sobre quem seriam os culpados por tais cenas. Para alguém que acompanha notícias com frequência e reflete sobre os acontecimentos internacionais, o filme acaba batendo em teclas repetidas e não apresenta nada que já não seja conhecido. Para um público mais desinteressado, pode até causar um bom impacto e servir de porta de entrada para debates mais aprofundados – mas aí fica a questão se esse público sequer chega ao filme.


Tudo é permeado por uma narração em off da voz de Damian Lewis lendo trechos dos escritos de Orwell. Para a minha surpresa, Peck não entra no debate sobre o posicionamento do autor, mas simplesmente aceita de forma acrítica o seu pensamento como uma verdade que todos deveriam parar para ouvir. Não que os textos de Orwell não sejam bons, muitos são. Porém, surpreende que ele em nenhum momento tome um lado, enquanto ataca todos, de forma que o seu tão falado anti-totalitarismo acaba se tornando genérico. Que o totalitarismo é ruim, sabemos. O que mais é possível extrair dessa fonte? Se depender do filme, parece que não muito – e é aqui que mora o problema.


O documentário é bem intencionado e tem uma posição clara, mas corre o risco de cair em um “nem lá, nem cá” que prejudique a sua mensagem. Pelo discurso do filme seria impossível dizer que ele serve à direita, mas ao mesmo tempo a sua superficialidade permite comparações esdrúxulas como “isso acontece tanto no fascismo quanto no socialismo, portanto ambos devem ser combatidos igualmente” – mensagem que muitos entendem de 1984, por exemplo, impulsionados pela falta de posicionamento do autor, que passou parte da vida defendendo um abstrato “socialismo democrático”.


Ao final da sessão, eu saí do cinema com raiva. O filme de Peck mexe com qualquer um que perceba os jogos expostos na tela e se entenda como vítima de um sistema que nos engana constantemente e nos deixa com vontade de levantar e lutar por um mundo melhor e mais livre. Só que não consegui chacoalhar a sensação de que o filme poderia ter sido mais impactante se questionasse um pouco a figura de Eric Arthur Blair e tirasse o discurso da zona de conforto. Que toda guerra é ruim, sabemos. O que causa esta e o que causa aquela? Que o totalitarismo é ruim, sabemos. O que mais pode ser colocado? Como aprofundar tudo isso? Peck, ao se manter atrás do discurso de Orwell, deixa essas perguntas sem resposta.

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