Valor Sentimental (Noruega, Alemanha, Dinamarca, França, Suécia, Reino Unido, 2025)
Título Original: Affeksjonsverdi
Direção: Joachim Trier
Roteiro: Joachim Trier, Eskil Vogt
Elenco principal: Renate Reinsve, Stellan Skarsgård, Inga Ibsdotter Lilleaas, Elle Fanning
Duração: 2h13min
Distribuição: Retrato Filmes
Depois de abraçar A Pior Pessoa do Mundo, Joachim Trier cura o trauma familiar com a arte do cinema em Valor Sentimental.
Há episódios traumáticos que nunca tivemos a chance de reprocessar: o dia em que discutimos com um amigo e soubemos que a relação jamais voltaria a ser a mesma; ou aquela fase escura em que precisávamos de alguém ao lado e essa pessoa não estava lá. Algo semelhante estrutura Valor Sentimental, novo longa de Joachim Trier que sucede o aclamado A Pior Pessoa do Mundo.

Na trama, Nora (Renate Reinsve) e sua irmã, Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas), enfrentam o luto pela morte da mãe enquanto o pai (Stellan Skarsgård), um diretor de cinema renomado, tenta se reaproximar das filhas após anos de afastamento. Resistente ao contato, Nora recusa a proposta de protagonizar o novo filme dele e vê o papel, pensado para ela, ser entregue a uma estrela de Hollywood (Elle Fanning).
No livro Como Falar Sobre Cinema, a crítica Ann Hornaday observa que cinéfilos experientes reconhecem o exato momento em que são fisgados por um filme. No meu caso, Valor Sentimental me capturou logo no prólogo: um texto escrito por Nora ainda adolescente sobre as memórias da infância narradas pela perspectiva da casa em que cresceu. A sequência funciona como ambientação perfeita, com uma descrição acerca das emoções sentidas por um objeto inanimado.
Deste trecho inicial em diante, o roteiro de Trier e Eskil Vogt, parceiro de longa data do cineasta, nos compenetra emocionalmente. Ao partir de uma dinâmica familiar conturbada e de uma protagonista moldada por suas fraturas afetivas, a história não apenas nos conecta ao melodrama de Nora e Gustav; ela também nos convida a projetar nossos próprios traumas no sofrimento universal da ficção.
Essa habilidade já estava presente em A Pior Pessoa do Mundo, que pincelaa questões paternais dentro da desorientação existencial dos millennials. De forma semelhante, Oslo, 31 de Agosto explorava a inquietação depressiva e a busca por pertencimento enquanto trata temas delicados. Em Valor Sentimental, porém, essa carga emocional antes fragmentada se cristaliza, somada a reflexões metalinguísticas sobre o cinema e suas propriedades curativas para os que se permitem ser atravessados por ele.
É impressionante a maneira como Trier condensa e dispersa os “pixels” da tela, guiando a densidade de cada cena com maestria. Os momentos ocupam exatamente a dimensão de que precisam para conduzir nossa experiência. Em um deles, Nora se desnuda emocionalmente diante do amante, entre o distanciamento e a intimidade. No seguinte, disputa com o sobrinho quem cospe mais longe. Essas vibrações sensoriais nos deixam como a própria casa dela: ora cheia e pesada, ora leve e silenciosa.
Nora e Gustav tentam encontrar na arte a forma para lidar com os sentimentos oblíquos que impedem que eles se reaproximem, se perdoem e se redimam consigo mesmos e um com o outro. Ela encontra na atuação um canal catártico, quase sufocante, desaparece em suas personagens na tentativa de se reencontrar. Ele tenta imprimir em um filme os momentos que perdeu com a filha, numa tentativa de recuperar o controle como diretor depois de ter fracassado como pai.
Renate Reinsve, musa de Trier, encarna uma mulher complexa, consciente das rachaduras psíquicas que carrega e que ecoam nas fissuras da casa da infância. É uma intérprete que só enfrenta suas sombras sob a luz dos palcos. Stellan Skarsgård, por sua vez, encontra aqui um dos papéis mais ricos de sua carreira. É carismático e frio, capaz de expressar no cinema uma sensibilidade que não consegue oferecer às próprias filhas. Ao lado deles, Inga Ibsdotter Lilleaas e Elle Fanning se equilibram como coadjuvantes que orbitam a dinâmica central e desenvolvem seus próprios arcos narrativos com consistência.
A parte técnica, por sua vez, trabalha para intensificar a relação emocional entre o filme e o público. A trilha sonora de Hania Rani traz canções que permanecem conosco por dias e a montagem de Olivier Bugge Coutté acerta ao recorrer à narração quando necessário e ao usar cortes secos seguidos de segundos de tela preta, como uma pausa antes de entrarmos na próxima cena.
Como síntese, Trier entrega o melhor filme do ano, capaz de lembrar que a arte não apenas extravasa o que não conseguimos processar sobre a existência, mas também nos cura ao permitir que encenemos, no cinema, aquilo que buscamos elaborar na vida. É a expressão simbólica do que carregamos por dentro: um gesto, um objeto, um filme, uma performance de verdadeiro valor sentimental.




