Alien, o Oitavo Passageiro (Reino Unido, Estados Unidos, 1979)
Título Original: Alien
Direção: Ridley Scott
Roteiro: Dan O’Bannon e Ronald Shusett
Elenco principal: Sigourney Weaver, Tom Skerritt, Veronica Cartwright, Harry Dean Stanton, John Hurt, Ian Holm e Yaphet Kotto
Duração: 117 minutos
Distribuição: 20th Century Fox
Disponível em: Disney+
No mínimo é sempre muito interessante ou estimulante parar e analisar o porquê de certos filmes ditos clássicos da história do cinema se firmarem como contínuos objetos de estudo e influência ao longo dos anos. São filmes que populam o imaginário de diversos tipos de público com o passar das décadas, e mesmo quem nunca deu de cara com eles reconhece seus elementos e sua identidade como definidores ou inovadores na forma como você pode olhar para um ou mais gêneros.

Quatro anos antes de Alien, o Oitavo Passageiro (1979), foi o Tubarão (1975) de Steven Spielberg que não somente reescreveu a forma como o público olharia para um lançamento de grande apelo popular, mas como este público enxergaria (ou quase não enxergaria, naquele caso) a onipresença de uma criatura cuja ameaça se concentrava muito mais na iminência de sua aparição do que… na sua própria aparição física, propriamente dita.
Ridley Scott, em seu segundo longa-metragem, pareceu ter levado os ensinamentos da escola de Steven Spielberg muito a sério. Uma nave vagueando pelo espaço, tripulantes em uma missão e um desvio de curso que mudará completamente suas vidas. O ponto de partida de O Oitavo Passageiro ainda soa tão banal hoje quanto provavelmente soou em 1979, e tudo bem, porque é da banalidade dos elementos de um gênero (a ficção-científica) que o diretor vai além e não somente estabelece um estudo de horror pra lá de democrático (não existe um ou uma protagonista no filme até o final), como também um atestado pra lá de visceral sobre como o capitalismo é capaz de devorar a tudo e a todos. E na melhor das ironias, isso é bastante literal aqui.
Claro que, em se falando deste pontapé de uma longeva franquia que, entre passos e tropeços, veio se expandindo ao longo de mais de 40 anos (não à toa, agora temos uma SÉRIE para falar mais de Alien), a figura fálica e silenciosa do xenomorfo criada pela mente de H.R. Giger é a primeira lembrança que salta aos olhos e à mente. Curioso que o design da criatura, mantido tão às escondidas neste primeiro filme entre sombras e feixes de luz, não seja a mais assustadora que já vimos na franquia, mas talvez seja a mais emblemática pela maneira como a câmera de Scott vai desenhando, de forma artesanal, as expectativas pelo próximo vislumbre que poderemos ter, ou não, do monstro. A evolução da criatura desde a saída daquele ovo, passando pelo “parto” forçado do interior de um homem (ironia nada óbvia) até chegar na imponência fálica que precisará ser derrotada por Ellen Ripley (Sigourney Weaver) é de uma cadência que, misteriosamente, o próprio diretor raramente apresentou novamente em sua filmografia. Neste mesmo cuidado de construção sobre a figura do xenomorfo, também são dadas ao público todas as oportunidades possíveis para conhecer cada canto e espaço da nave Nostronomo. Tal como os personagens, jamais sabemos de onde o próximo passo violento poderá surgir, mesmo conhecendo aquele espaço com a palma da mão – trabalho de direção de arte impecável de Roger Christian,Leslie Dilley, Jonathan Amberston e Jean Giraud.
Justo também seria dedicar um parágrafo para falar da nossa heroína sobrevivente, que viria a ser sacramentada no imaginário popular em filmes seguintes, mas que aqui já justifica sua posição de final girl (O Oitavo Passageiro também é um slasher, no final das contas). A figura da Ellen Ripley de Weaver (e olha que estamos falando de um filme com Harry Dean Stanton e John Hurt!) e sua sobrevivência contra aquela figura fálica são muito bem justificadas pelo desenho que a personagem vai tomando ao longo da narrativa, sempre atenta aos sinais, sempre pressentindo e advertindo os demais sobre o perigo. Considerando que a figura do xenomorfo igualmente representa essa violência sexual, o tão emblemático final com Ripley praticamente desnuda e vulnerável diante desse monstro ganha camadas ainda mais surpreendentes quando lembramos que é uma mulher sobrevivendo ao ataque de uma criatura que só nasceu devido a ambição de todo um sistema que visava o capital, não a sobrevivência dos seus.
No que concerne ao gênero da ficção científica de horror, O Oitavo Passageiro é um filme bastante improvável. Improvável pelo seu caráter artesanal, como trabalho de som entre ruídos e chiados dentro daquela nave sendo quase um personagem à parte; pelas conversas sobrepostas, como famoso diálogo na mesa, que sempre me dá a ideia de improvisação de tão natural, o que acentua o choque com o que acontece logo em seguida; pela proeza de dar vida a esse estudo intimista da claustrofobia; pela nave também ser esse organismo vivo, sujo, que se torna igualmente a única arma desses personagens contra a criatura, e paralelamente, também ser uma das principais armas do monstro. E tudo isso aliado ao apelo clássico de um blockbuster para a grande massa, e bem… se Spielberg iniciou esse movimento radical, Ridley Scott ajudou a fincar essa proposta no imaginário popular, com o adendo de que, no espaço, ninguém pode ouvir você gritar.