Crítica | 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes | Papaya

Existe uma infinidade de obras focadas no dilema entre a vocação e os desejos individuais, mas certamente nenhum deles é tão simpático quanto Papaya. O filme é escrito e dirigido por Priscilla Kellen, em seu longa-metragem de estreia, e produzido por Alê Abreu, brasileiro que conquistou o mundo com sua animação autoral em O Menino e o Mundo. E de uma equipe com uma boa ideia, raramente sairia um filme ruim.

No filme praticamente sem falas, acompanhamos a história de uma semente de mamão que se encanta pela possibilidade de voar a partir da observação de um pássaro. Já livre da árvore que o gestou, mas sendo acompanhada carinhosamente por ela, essa semente passa a criar a sua própria jornada a partir de um sonho que parece quase impossível: voar. Entre diversas tentativas, sendo muitas delas frustradas, ela precisa seguir em movimento para não criar raízes. O conto de amadurecimento, apesar de bastante frutado, consegue passar longe da obviedade, conseguindo falar com públicos mais jovens na mesma medida em que comove os mais velhos.

Desde a primeira imagem, é difícil não ficar encantada pelo design de personagem que transforma uma simples semente de mamão em um objeto com personalidade e, mais do que isso, fofura. Uma simples bolinha preta consegue ganhar profundidade com um olhar arredondado e inocente, ainda mais quando ela é apresentada praticamente sendo amamentada pelo fruto mamão. Mesmo com essa figura materna do mamoeiro, as separações que acontecem não são traumáticas, mas funcionam em um sentido de ciclo da vida. Nesse sentido, o filme atualiza alguns dos clichês das animações clássicas nas quais mãe e filhos são sempre brutalmente separados. Em uma era que prioriza a terapia, aqui a mãe permanece com sua cria e está disposta a ajudá-la nas diversas fases da vida, mas mantendo a sua autonomia e sua capacidade de desejar a todos os momentos. Nem ausente nem super-protetora, talvez essa seja a melhor figura materna que o gênero encontra em um bom tempo.

O interessante do filme ter poucas falas é que nunca é mencionado à nossa protagonista que uma semente é fisicamente incapaz de voar. Pela observação, ela consegue entender que a sua missão é um pouco inadequada, mas ela nunca é colocada como impossível, sendo inclusive auxiliada pelas outras criaturas da floresta na medida do possível. Entra-se em uma jornada do herói bastante clássica, na qual a jornada acaba sendo quase tão importante quanto o seu ponto final. O que a destaca aos olhos do público é como essa jornada é contada, entre os detalhes relacionados à natureza, a trilha sonora brasileiríssima e a capacidade de dar características aos personagens através de poucos sons, algumas formas e muitas cores.

O uso de cores é elemento de muito destaque, sendo a lisergia um dos grandes destaques da obra. Por um lado, ela é capaz de hipnotizar o público mais jovem, tornando o filme sensorialmente interessante para todas as idades. Pelo outro, o seu uso é colocado de forma bastante intencional para criar as ligações entre os personagens do universo das plantas. Os processos que normalmente são invisíveis aos olhos se tornam alegres e nos mostram o quanto de movimento existe, mesmo que parte dele talvez não seja biologicamente tão assertiva. De certa forma, o filme se relaciona com uma das minhas obras preferidas do ano passado, Amiga Silenciosa, justamente por colocar as relações do mundo digital à tona. O que também é inovador aqui é a colocação de um vilão moderno: o agronegócio. Tal qual foi o caçador da mãe do bambi para uma geração, mas aqui com maior elaboração, temos uma realidade colocada de maneira direta, mas ainda lúdica.

Tudo isso é colocado em tela com uma trilha sonora deliciosamente brasileira, que além de acompanhar a obra como plano de fundo dada a ausência de diálogos, ajuda qualquer plateia a compreender o espaço geográfico que o filme ocupa. 

A conclusão é essa animação divertida, mas que esconde em sua beleza plástica uma grande profundidade e que consegue explorar muito bem todos os campos nos quais se propõe, brincando com estereótipos de gênero e narrativa, mas ainda tendo um produto final que funciona bem comercialmente.

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