Estopim (Brasil, 2026)
Título Original: Estopim
Direção: Tiago A. Neves
Roteiro: Criação coletiva (Cinema no Meio do Mundo e Coletivo Atuador)
Elenco principal: Ingrid Castro, Nica Bezerra, Osvaldo Travassos, Cely Farias, Joálisson Cunha
Duração: 90min
Em conversas mais diretas com a literatura, é comum que filmes tenham os seus roteiros separados em capítulos. Pela escolha em explorar a vida familiar através desta estrutura, Estopim acaba se aproximando bastante de exemplos conhecidos do romance contemporâneo literário. Separado em sete capítulos que contam uma história de forma não linear, somos introduzidos a um seio familiar bastante comum no Brasil mas com suas próprias particularidades. Através de um clima tenso e um trabalho coletivo extenso, a obra propõe uma reflexão sobre os laços familiares e as sobrecargas que eles trazem.

O filme é resultado do trabalho conjunto entre dois coletivos: o Coletivo Atuador, no qual atores paraibanos se reúnem para explorar diversas possibilidades de atuação para o audiovisual, e o Instituto Cinema no Meio do Mundo (CIMM), de experimentações na produção audiovisual. Trazendo uma proposta relevante para a atualidade, e mais ainda para países latinos nos quais os laços de sangue parecem ser praticamente inquebráveis, ele coloca o drama de duas irmãs que precisam lidar com um adoecimento senil do pai, sendo que este manteve uma relação abusiva com toda a família por praticamente toda a sua vida.
Soma-se à essa temática já particularmente espinhosa e complexa alguns fatores de produção que tornam a obra ainda mais difícil. Na possibilidade de realizar um filme com processos mais coletivos, a impressão que fica é de que toda a equipe tenta realizar seu trabalho técnico da maneira mais complicada possível.
Escolhe-se, por exemplo, filmar cada um dos capítulos como um longo plano-sequência, sendo que muitos desses capítulos estão em momentos bem diferentes da linha do tempo. Além da confusão proposital que essas escolhas já causam ao espectador, soma-se a isso uma escolha por utilizar em cada um deles a técnica de câmera na mão, que já é complexa por si só com toda a necessidade de ensaios e planejamentos para gerar a sensação de continuidade temporal geralmente associada a ela. Ao invés disso, o excesso de foco na primazia técnica faz com que os capítulos se tornem irregulares, com alguns, como o primeiro, parecendo melhor planejados do que outros. Além disso, a repetição do recurso em momentos narrativos muito diferentes faz com que parte de seu sentido seja perdido, além de gerar situações cênicas estranhas – como o episódio no qual a atriz pega uma salada, o leva para a sala e retorna com ele para a cozinha, apenas para que a câmera possa segui-la enquanto isso acontece.
Também por se tratar de um contexto delicado, existem muitos momentos de silêncio e reflexão que são contrapostos por outros nos quais as falas deixam de lado qualquer subjetividade em nome de um texto sem contradições, como é comum na fala humana normal. Utiliza-se uma chave do naturalismo para a maior parte do filme, mas ela não consegue se manter quando começa uma discussão e as pessoas esperam, ordenadamente, pelo seu momento de falar para que a fotografia não seja interrompida.
Assim, o filme acaba se atrapalhando por suas próprias decisões criativas, não conseguindo construir a tensão que seria necessária para manter o público interessado nem conseguindo aprofundar na discussão profunda que ele tenta trazer. Vemos, ao invés disso, mulheres incapazes de sair de um ciclo eterno de violências, sem nenhuma possibilidade de resolução de problemas.




