Título Original: #SalveRosa
Direção: Susanna Lira
Roteiro: Ângela Hirata Fabri
Elenco principal: Klara Castanho, Karine Teles, Ricardo Teodoro, Indira Nascimento, Alana Cabral
Dentro de um contexto de Mostra de Cinema de Tiradentes, na qual a maior parte das obras apresentadas é desafiadora em termos de narrativa, estrutura, técnica ou uma mistura dos três anteriores, a possibilidade de assistir a #SalveRosa, primeiro filme de ficção dirigido por Susanna Lira e que segue uma linha mais clássica de cinema, forma um bom contraponto. Presente na programação por conta da retrospectiva de carreira da homenageada Karine Teles, ele traz um roteiro sobre uma influenciadora digital, Rosa (Klara Castanho), e sua relação com a mãe narcisista Dora (Karine Teles).

Este foi um caso no qual a estreia de um filme se beneficiou bastante do momento histórico no qual ele foi lançado. Isso porque em agosto de 2015 o youtuber Felca lançou um vídeo sobre os conteúdos de adultização de crianças que levou inclusive à prisão de um dos denunciados, Hytalo Santos. Assim, com a estreia acontecendo muito próxima a esse evento, o longa se tornou mais relevante por tocar em um tema subjacente, mas sob outra ótica. Isso porque no caso do filme, fala-se sobre a infantilização para seguir atendendo a um público alvo bastante lucrativo para anunciantes em plataformas de vídeos.
Já nas primeiras cenas, percebe-se que as equipes técnicas do filme são bastante eficientes e têm um direcionamento criativo claro e bem realizado. A câmera, por exemplo, segue uma estética de cortes invisíveis que somente guiam os espectadores pela cena, prezando composições com simetria e beleza plástica, somente se distraindo deste eixo quando quer mostrar um valor de produção e decide pelo uso de drones. Isso é somado à uma direção de arte que também foca em manter a maioria dos espaços próximos à realidade, mas deixando claros os momentos nos quais a artificialidade é forçada até mesmo aos espectadores, como é o caso do cenário de Youtube de Rosa. Os figurinos brincam com os reflexos da mãe na filha, tanto através das escolhas por roupas infantilizadas quanto no próprio uso de cores que ora são muito parecidas, e ora completamente contrastantes. Até o uso dos tecidos se mostra escolhido a dedo, com materiais nobres e sensuais para a mãe, enquanto a filha também está sempre impecável, mas aparentando pouca idade.
Esse mesmo esmero é apresentado no casting, que se mostra acertado na escolha de todos os papeis principais. Karine Teles, por exemplo, tem a possibilidade de trazer uma personagem detestável, mas extremamente carismática, como normalmente é a pessoa narcisista. Ricardo Teodoro, vizinho que vai ganhando relevância com o desenvolver da trama, também cumpre muito bem sua função. Mas o maior acerto está em Klara Castanho, muito conhecida pelo público por conta de sua carreira infantil, e que consegue ir se desvencilhando dessa imagem à medida em que o filme se desenvolve.
Entretanto, mesmo com todas essas questões bem alinhadas, nem tudo isso é capaz de salvar a obra de um roteiro medíocre. Entre a insistência em dar dicas apressadas sobre a trama, o tratamento de adultos como completamente alheios ao funcionamento da internet e um final vergonhoso, a obra se torna cada vez mais expositiva e menos cativante. É o tratamento de seu público como se todos que assistem ao filme fossem burros, o que se torna cada vez mais comum e deixa suspenses cada vez mais desinteressantes.
O filme funciona bem como uma vitrine para diversos setores e até mesmo para a carreira da homenageada, mas tratá-lo como um grande momento do cinema nacional é um exagero injustificável.



