O Velho Fusca (Brasil, 2026)
Título Original: O Velho Fusca
Direção: Emiliano Ruschel
Roteiro: Bill Labonia
Elenco principal: Caio Manhente, Tonico Pereira, Cleo Pires, Danton Mello, Giovanna Chaves, Christian Malheiros, Isaías Silva, Priscila Vaz
Duração: 97 minutos
Distribuição: A2 Filmes
Para iniciar meu texto sobre O Velho Fusca, a primeira informação que busquei online foi sobre o interesse da Geração Z em ter um carro, pois a proposta de um garoto de 18 anos que tem o desejo de ter um automóvel me parece um tanto ultrapassada. No entanto, completamente contra a minha impressão, me deparei com um estudo que indica que, na América Latina, 9 entre cada 10 jovens dessa geração deseja um carro no futuro (pesquisa realizada pelo Instituto De La Riva Group). Mas, se essa é uma pequena indicação de que o longa está alinhado com alguns valores dos jovens, sigo acreditando que seu humor é absolutamente anacrônico.

Na narrativa, Junior (Caio Manhente) acredita que a única coisa que o separa de viver a vida de seus sonhos é possuir um carro. Pensando em como resolver este problema no curto prazo, ele decide forçar a aproximação com seu avô (Tonico Pereira), proprietário de um Fusca 1976, enquanto ignora todos os avisos de familiares sobre as dificuldades que tiveram com o homem. Focado em conseguir seu carro dos sonhos, ele parte nessa jornada de tentar se aproximar do homem de personalidade no mínimo difícil enquanto equilibra todos os outros problemas de sua vida: seu trabalho, a relação com os pais e tios e a paixão que nutre pela colega de trabalho Laila (Giovanna Chaves).
O ponto chave para entender os problemas do filme é pensar que ele parece se identificar mais com o avô do que com o neto, enquanto tenta conversar com um público jovem. Algo que incomoda desde a primeira cena em que o avô aparece e que se repete em todas as cenas do longa-metragem é uma atitude de desculpar o personagem por todos os impropérios e crimes de racismo e homofobia que ele cometeu ao longo da obra com a justificativa de ele ser um homem de outros tempos. É justamente por conta desse pensamento que essas atitudes tiveram que se tornar crimes para que os preconceitos parassem de se tornar aceitáveis dentro das esferas públicas. Replicá-lo nas telas grandes sem acrescentar nenhum tipo de crítica ou reflexão sobre ele – e ao contrário disso, tentando justificá-lo – infelizmente faz com que o filme já se inicie parecendo anacrônico.
Só que existe uma certa perversão no modo que a obra é estruturada. Temos o filme replicando esse pensamento ultrapassado em várias esferas de sua narrativa, e talvez esses detalhes menos conscientes sejam mais prejudiciais que o discurso direto. Contrariando todas as boas práticas de roteiros mais contemporâneos, a existência de todos os personagens parece depender única e exclusivamente da vida dos protagonistas. De coincidências peculiares como as aulas de boxe do interesse romântico acontecendo justamente no terreno ao lado da casa do avô até um pai (Danton Mello) e mãe (Cleo Pires) que não parecem nem trabalhar nem existir fora dos olhos do filho, tudo vai acabando aos poucos com a magia do cinema em contar uma história de maneira mais interessante que a vida real.
Mais do que isso, o uso dos personagens secundários e até a sua caracterização parecem existir justamente para justificar esse universo, ao invés de darem uma ilusão de pessoas que fugiram da vida real para se tornarem personagens do filme. Um exemplo são os tios do garoto, um casal gay que se comporta sem afeto ou química e cuja sexualidade parece definida por um cabelo colorido e alguns adesivos de arco-íris em seu material de trabalho. Mas isso se repete também nas personagens femininas, todas caracterizadas parecendo bonecas prontas para existir apenas para o desejo masculino. Desde as aulas de boxe sem suor aparente até a maquiagem e cabelo impraticáveis para um ambiente de trabalho em um restaurante, fica simplesmente muito claro que o filme é centrado em uma visão de mundo de um homem branco heterossexual. Mas a perversidade vem em tentar colocar ali uma diversidade que não dialoga com essa posição, deixando todos esses personagens problemáticos e impossíveis de acreditar.
Assim, por mais que seja bom ver um filme brasileiro com um bom valor de produção e que tenta se comunicar com um público jovem mais amplo, a obra simplesmente não convence.




