Trial of Hein (Alemanha, 2026)
Título Original: Der Heimatlose
Direção: Kai Stänicke
Roteiro: Kai Stänicke
Elenco principal: Paul Boche, Ilia Schle, Sebastian Blomberg, Stephanie Amarell
Duração: 122 min
Pensando em uma dinâmica de festival de cinema, com dezenas ou às vezes centenas de filmes disponíveis, ter uma boa sinopse pode ser um elemento que fará com que uma maior parte do público assista à obra. Justamente assim que Trial of Hein me chamou a atenção, com a proposta de um homem, Hein (Paul Boche), retornando à sua pequena cidade natal 14 anos após sair dela. Só que, surpreendentemente, mesmo com uma comunidade muito próxima, ninguém parece se lembrar da sua existência, havendo então um julgamento para descobrir se ele fala a verdade ou se é um aproveitador que deseja ter alguma vantagem em relação aos habitantes da pequena ilha.

O filme é o longa-metragem de estreia do diretor Kai Stänicke, que já havia realizado alguns curta-metragens e sido parte do programa Berlinale Talents, que visa desenvolver potenciais talentos de diversos campos artísticos. Pensando em suas próprias experiências como pessoa queer durante a pandemia, escreveu o roteiro para o filme, juntou uma equipe sob um orçamento moderado e desenvolveu o projeto. O resultado, o longa-metragem de mais de duas horas que foi apresentado, parece uma boa sinopse de um projeto bem-intencionado, mas com pouca experiência perante um universo de referências.
Um exemplo claro desta dualidade está na escolha da ambientação deste cenário. Por um lado, tem-se uma ótima intenção de utilizar o espaço delimitado de uma ilha, indicando ao mesmo tempo o isolamento físico e mental daquela comunidade, em exemplo desta ótima intenção. Por outro lado, dentro desta ilha há a escolha pelos cenários desconstruídos, com casas cênicas com parte das paredes faltando de forma intencional. Se isso indica uma boa opção para diminuição de custos de produção, também mostra que se bebe da inspiração de Dogville (2003), que tem uma proposta muito mais radical de uso desse elemento cênico. Ou seja, há exatamente o uso dessa fórmula: boas intenções e uso de boas referências, mas com dificuldade de se criar algo original.
Assim, mesmo havendo algo bastante original em suas propostas, muitas vezes nos encontramos em uma situação tão imersa na mente do diretor que há uma dificuldade em se conectar com o que está em tela. Se dá uma importância elevada a manter a atmosfera de mistério, mas isso também impede que personagens e conflitos se desenvolvam. E mantendo o filme nesse universo da alegoria por muito tempo, não conseguimos adentrar a obra como seria esperado, ainda mais quando o filme se transporta para o universo do tribunal e precisamos refletir se ele é a pessoa que está afirmando ser.
Longe de ser um filme de estreia catastrófico, e com uma gestação de boas ideias, o longa realmente parece trilhar um pouco pelo caminho da inexperiência. Felizmente, dentro os males do cinema, este talvez seja um dos menos piores, indicando uma boa possibilidade para projetos mais desafiadores no futuro do cineasta.




