Crítica | 76º Festival de Berlim | At the Sea

At the Sea (Estados Unidos, Hungria, 2026)

Título Original: At the Sea
Direção: Kornél Mundruczó
Roteiro: Kornél Mundruczó, Kata Wéber
Elenco principal: Amy Adams, Murray Bartlett, Brett Goldstein, Chloe East, Dan Levy, Jenny Slate, Rainn Wilson
Duração: 112 minutos

No início da sessão de At the Sea, existia alguma expectativa no ar. Como seria a parceria entre o diretor húngaro Kornél Mundruczó, que recebeu uma grande atenção mundial por conta de seu longa-metragem sensível Pedaços de uma Mulher (2022), com a atriz já muito reconhecida Amy Adams, que parece recentemente não estar em um momento particularmente alto de sua carreira? A resposta, infelizmente, aparece já nos primeiros minutos de filme, quando percebemos o quão superficial o filme será ao representar uma personagem em busca da vida após a sobriedade.

Somos apresentados a Laura (Amy Adams), essa mulher que acabou de sair de uma clínica de reabilitação para o transtorno por uso de álcool e retorna para a família que a espera na idílica região de Cape Cod, Massachusetts. Logo percebemos que este será um drama familiar superficial, no qual ela buscará ao seu novo espaço de volta a essa vida enquanto todas as pessoas ao seu redor estão ressentidas com sua ausência e urgindo pelo seu retorno rápido ao trabalho. Este trabalho como diretora de uma famosa academia de dança seria a principal fonte de dinheiro da família, e o papel não foi preenchido na sua ausência porque seu marido Martin (Murray Bartlett) justificou a sua ausência como uma fuga para Bali para passar uma temporada.

É raro se sentir tão fortemente a sensação de descompasso ao perceber que este é um drama de pessoas brancas e muito ricas que têm todos os aparatos necessários para conseguir resolver seus problemas, mas simplesmente não conseguem se comunicar. Talvez por uma questão cultural implícita e que não pode ser compreendida, essas pessoas simplesmente não conversam ou fazem terapia, algo que seria bastante óbvio dadas as dificuldades que elas passaram. Mais difícil ainda é aceitar as escolhas que as personagens tomam em cena, como o abandono de um menino doente no leito de um hospital ou agir com agressividade em relação à sexualidade da própria filha, ao invés de conversar com ela.

Existem muitas cenas que parecem pensadas para parecer profundas, principalmente com Laura em praias ou piscinas apenas refletindo – a maior questão é que não conseguimos comprar a complexidade dessa personagem em nenhum outro momento do filme. Entre um uso constrangedor de flashbacks para explicar a relação de Laura com seu falecido pai e uma relação entre mãe e filha que não faz nenhum sentido dentro da chave realista que o filme utiliza, espera-se que em algum momento a obra tenha alguma revelação sobre o seu objetivo em contar essa história sobre sobriedade, mas isso não chega em nenhum momento. Ao invés de lidar com traumas e depressão com seriedade, a obra parece funcionar apenas na primeira camada de qualquer problema que lhe é apresentado. O estresse pós traumático e a tentativa de suicídio surgem e desaparecem da trama de maneira repentina, como se questões de saúde mental fossem facilmente ignoráveis.

Assim, perdidos entre cenas de dança mecânicas e desligadas do resto da narrativa e uma atuação de Amy Adams que não consegue passar do plano para o tridimensional, a obra se torna esquecível a partir do momento em que se encerra.

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