Crítica | 76º Festival de Berlim | Wolfram

Wolfram (Austrália, 2025/2026)

Título Original: Wolfram
Direção: Warwick Thornton
Roteiro: Steven McGregor, David Tranter
Elenco principal: Deborah Mailman, Pedrea Jackson, Thomas M. Wright, Erroll Shand, Joe Bird, Luka May Glynn-Cole
Duração: 100 minutos

Existe algo no código de honra e na estrutura patriarcal imutáveis do faroeste clássico que o fazem ser um gênero muito facilmente reapropriado por outras culturas. Seja pelo Spaghetti Western da Itália nos anos 1960, pela releitura brasileira do Nordestern e até do Centroestern de Oeste Outra Vez (2024), sempre existe uma possibilidade de utilizar essas estruturas do gênero para tratar de questões locais. É interessante que o cineasta aborígene Warwick Thornton também tenha pensado no gênero para abordar acontecimentos da Austrália nos anos 1930.

O país havia dado seus primeiros passos para a independência inglesa em 1901, e naquele momento estava sofrendo as mazelas das consequências da Grande Depressão. Nesse contexto, as taxas de desemprego estavam em uma alta gigantesca e, para os aborígenes, ainda havia a cruel política de separação de famílias para tentar uma integração forçosa com as famílias europeias. É nesse contexto que conhecemos os dois irmãos que estão no eixo central do drama do filme, sendo explorados por brancos racistas em uma mina de tungstênio. Quando eles conseguem fugir, começam uma jornada em busca de sua mãe, que os abandonou com a promessa de um dia retornar.

A maior dificuldade que o filme encontra é o diálogo entre uma linguagem um pouco mais realista, como ele propõe, e o quão forçosamente acontecem os fatos do roteiro. Entre situações absolutamente descompassadas, uma luta de kung fu e um final com uma solução tão mágica que se torna quase cômica, se torna difícil conseguir levar o projeto tão a sério assim. Ainda assim, ele tem uma série de elementos bastante interessantes que fazem com que a experiência de assisti-lo seja no mínimo interessante.

A questão principal é que ele claramente é um filme feito por um realizador que conhece a cultura oprimida em questão, o que faz muito sentido quando se pensa nas origens de Warwick Thornton. Desde as conversas sobre seu sistema de religião até os pequenos sinais não verbais que eles realizam entre si, percebemos uma grande preocupação em como realizar essa representação. Mesmo que o filme abuse dos estereótipos quanto à narrativa geral, ele presta bastante atenção nesses pequenos detalhes e transparece seu próprio interesse ao público.

Além disso, a fotografia do longa tem detalhes igualmente oportunos. Um deles é o uso do sol, elemento abundante no deserto australiano como uma presença onipresente, ora funcionando para iluminar as cenas e ora funcionando como uma maneira de também causar cegueiras. Ele consegue equilibrar uma visão plasticamente bonita do deserto com detalhes como pequenos talismãs deixados pelos indígenas, fazendo com que elementos micro e macro tenham o seu papel na história. O mesmo infelizmente não acontece com a trilha sonora, que parece excessiva em volume e presença contínua em todo o filme.

Com alguns elementos excelentes e outros que contrabalanceiam, o filme acaba sendo uma experiência mediana que possivelmente será lembrada ou por seu visual incrível ou por suas reviravoltas de roteiro estapafúrdias. Ainda assim, é bacana poder assistir a um filme australiano feito pelo seu povo e com uma visão mais específica sobre o racismo legalizado.

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