Crítica | 76º Festival de Berlim | Soumsoum, la nuit des astres

Soumsoum, a Noite das Estrelas (França e Chade, 2026)

Título Original: Soumsoum,la nuit des astres
Direção: Mahamat-Saleh Haroun
Roteiro: Mahamat-Saleh Haroun e Laurent Gaudé
Elenco principal: Maïmouna Miawama, Achouackh Abakar Souleymane, Ériq Ebouaney e Brigitte Tchanegue
Duração: 101 minutos

É até estranho continuar ter que citar Chimamanda Ngozi Adichie mais de 10 anos depois de seu famoso TED talk sobre o período de se contar uma história única sobre a África, mas infelizmente a nossa sociedade permanece tratando todo um continente como uma unidade e ignora a riqueza de conhecimento e histórias que está presente em cada um dos países. Mais do que isso, seguem-se contando histórias extremamente estereotipadas e que não ajudam a compreender o que é específico de cada região e dos modos de vida locais. É nesse clima que Soumsoum, la nuit des astres funciona muito bem para abrir os nossos olhos sobre a região de Ennedi, no Chade.

Somos apresentados à história de Kellou (Maïmouna Miawama), uma garota que vive uma vida relativamente comum até que passa a ser atormentada por visões que ela mesma não compreende. Entre tentar se comunicar com as pessoas ao seu redor sobre esse novo elemento na sua vida e tentar continuar levando seu cotidiano, a menina ainda tem que lidar com o machismo estrutural que além de oprimi-la, também afeta uma grande amiga, Aya, que é a parteira da vila. Essa dupla de mulheres que foge um pouco da norma absolutamente convencional do feminino na região é vista com bastante hostilidade pelas pessoas da vila.

O principal mecanismo que a obra utiliza para que elas possam lidar com a opressão é o realismo mágico. O que se inicia apenas com as visões de Kellou vão avançando na medida em que ela compreende mais sobre sua própria existência e do mundo ao redor dela culminando em um final arrebatador. Mas essa noção não é colocada no filme de maneira leviana ou repentina. Já nas primeiras cenas, conseguimos perceber a construção do uso de cores extremamente saturadas, sejam na areia extremamente clara, no céu extremamente azul ou no fundo de plantas extremamente verdes. Isso vai dando ao filme um ar de sonho que ajuda na construção do clima necessário para o seu encerramento.

Existe um momento da obra na qual as falas se tornam mais expositivas, mas ao mesmo tempo em que isso incomoda os espectadores, seria mais difícil compreender o filme sem isso. Esse é um problema da sociedade ocidental, mas o diretor se faz consciente da questão, talvez por sua própria vivência por muitos anos na França e a noção da ignorância geral sobre o Chade. Ainda que isso incomode por breves momentos, não chega a se tornar um real problema do andamento do filme.

Um convite para a reflexão sobre como e quando consumimos filmes africanos, e mais ainda sobre a opressão sistêmica em cima de mulheres em todos os lugares do mundo, o filme apresenta uma deliciosa fuga. Sofrida até o último momento, mas que se encerra de forma poderosa. 

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