Crítica | 76º Festival de Berlim | Yo (Love is a Rebellious Bird)

Yo (Love is a Rebellious Bird) (EUA, 2026)

​Título Original: Yo (Love is a Rebellious Bird)
Direção: Anna Fitch e Banker White
Roteiro: Anna Fitch e Banker White
Elenco principal: Yolanda Shea, Anna Fitch e Dylan White
Duração: 78 minutos

“O amor é um pássaro rebelde que ninguém pode domesticar”. É esta a síntese da ópera Carmen que Anna Fitch e Banker White utilizam para descrever Yo, amiga de Anna por muitos anos e que, por uma diferença significativa de idade com ela, acabou morrendo muitos anos antes dela. Yolanda Shea foi uma artista suíça que se recusou a viver a vida de acordo com as regras impostas a si pelo gênero, sexualidade e, ocasionalmente, pela velhice. E sua amiga Anna Fitch é uma igualmente artista que encontrou na mulher quase cinco décadas mais velha uma espécie de musa para a criação de um documentário-ensaio que celebra a sua vida.

Anna foi uma amiga para todas as horas. Entre as centenas de horas de material captado ao longo dos anos, vemos a diretora sendo cuidadora, aluna, professora. Ainda que isso gere situações que inicialmente são incômodas para a plateia, como ver a senhora extremamente vulnerável e nua tomando banho, também fica claro muito cedo que as intenções da diretora são apenas de parar de romantizar situações. O consentimento explícito é inclusive colocado em tela, o desprendimento de que aquele material poderia se tornar qualquer coisa depois que ela morresse. E o que Anna faz é transformar essa história real em um conto sobre a amizade.

A obra não segue uma ordem direta de acontecimentos, o que causa tanto estranhamento quanto encantamento. Se em um momento temos Yo falando sobre sua adolescência austera na Suíça e sua mudança para os EUA, onde encontrou a liberdade (o que já soa irônico por si só em pleno 2026), em seguida já temos Anna aparecendo de surpresa como uma gigante dentro da casa da amiga. A sua falta de didatismo para fazer essas transições funciona a favor da obra ao criar essa atmosfera onírica onde se sente que qualquer coisa pode acontecer em seguida. E, como a vida de Yo segue o mesmo ritmo, a forma e o conteúdo conseguem encontrar equilíbrio. Também não há esgotamento de fontes de inspiração para lidar com as propostas do filme, das técnicas cinematográficas, fantoches, desenhos, fotos antigas e até manipulação de insetos.

Diferentemente do que foi citado em algumas críticas internacionais, acredito que o filme também não se isenta em deixar claro que as escolhas de Yo tiveram consequências em sua vida. Seja na relação com o marido, família ou filhos, escolher essa liberdade radical tem consequências para ela. É interessante até que o filme esteja na mesma competição de The Loneliest Man in Town, que de certa forma também fala dessa escolha entre comprometer seus ideais artísticos ou não. Mas talvez pelo mesmo tipo de patriarcado estrutural, essa nem chega a ser uma discussão para a outra obra. O mesmo acontece falando não se mostrar consciente de classe e raça, mas, novamente, estamos lidando com a mulher que larga a sua vida pregressa sem garantias, e acaba morrendo em outro país em uma casa de dois cômodos. Não é exatamente a miséria, mas colocar isso como completa ausência de recorte de classe também é um pouco ingênuo.

Lembrando muito o cinema de Agnés Varda, mas tratando da temática da amizade e do luto, o filme se desdobra em doces emoções e muitas reflexões sobre aquilo que sobra quando paramos de existir. E honestamente, se relacionar com essas questões é inerente à humanidade.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima