Crítica | 76º Festival de Berlim | Josephine

Josephine (EUA, 2026)

Título Original: Josephine
Direção:Beth de Araújo
Roteiro: Beth de Araújo
Elenco principal: Gemma Chan, Channing Tatum, Mason Reeves, Philip Ettinger, Syra McCarthy
Duração: 114 minutos

Ainda que exista uma infinidade de maneiras de tratar da violência sexual contra mulheres no cinema, com centenas de filmes que tratem do assunto direta ou indiretamente, enquanto mulheres continuarem passando por ela, filmes sobre o assunto vão continuar sendo pertinentes. E como a sociedade global não parece estar caminhando para se tornar um local menos perigoso para mulheres e meninas, um filme como Josephine, que trata de uma crainça que testemunha um estupro que acontece durante o dia, em um parque, parece uma ideia bem relevante.

Aqui, é interessante observarmos que a inspiração para o filme vem de uma experiência da própria diretora Beth de Araújo enquanto criança. Se seu primeiro longa-metragem, Soft & Quiet (2022), foi bastante elogiado por ter a coragem de tocar no vespeiro que é a crescente dos supremacistas brancos nos EUA atualmente, nesse segundo filme é necessário elogiar a sua coragem de lidar com uma temática tão sensível e complexa de ser abordada. Mas, infelizmente, possivelmente por conta de seu envolvimento pessoal com o assunto e com a sua forma de superar os acontecimentos de sua vida, a diretora acaba levando o público e personagens em uma jornada desmedidamente pesada e sem soluções. E aviso que este não será um texto sem spoilers, porque seria impossível fazê-lo e abordar as questões que considero pertinentes à obra.

O longa-metragem se inicia apresentando a relação entre Josephine (Mason Reeves) e seu pai. Em um típico fim de semana no parque, eles treinam futebol e corrida, até que a menina se afasta do pai e acaba presenciando uma agressão sexual. Aqui, percebe-se o quanto o assunto é pessoal para a diretora e o seu esforço para criar a cena da forma mais impactante o possível. Inspirada em um acontecimento de sua própria infância, ela coloca o foco da direção de fotografia em transformar a experiência do espectador na experiência da menina que presencia o acontecimento. Da angulação mais baixa ao posicionamento que se coloca atrás de uma árvore, conseguimos sentir a aflição da personagem e a sua incapacidade de agência. É necessário frisar que, para isso, passamos por uma grande aflição ao acompanhar uma cena extremamente violenta e que coloca o impacto gráfico em primeiro plano. Não que o desconforto de quem assiste seja algo a ser levado em conta para uma obra, mas é uma cena que certamente causa gatilhos a todas as mulheres que assistem.

Mais do que isso, o filme insiste no ciclo de culpabilização da vítima em todos os momentos a partir daí. Seja mostrando como o fantasma dos acontecimentos que se mantém com a menina ou até na forma que o assunto é abordado por seus pais, a tensão apenas cresce dentro de sua cabeça. Se é impressionante que uma atriz jovem como Mason Reeves consiga transparecer o desconforto da posição, ao mesmo tempo é difícil não sentir que o filme retrata com certo sadismo a situação. Novamente, considerando que é um assunto muito caro à diretora, é difícil não considerar o quanto de suas próprias experiências estejam ali retratadas. Independentemente disso, quando tais mensagens são colocadas na forma fílmica, elas acabam sendo irresponsáveis em relação a quem passou por estes tipos de traumas. Parece que toda vez em que se tem a escolha entre algo mais conciliador ou colocar a personagem principal em uma situação ainda mais sensacionalista, se escolhe pelo sensacionalismo. E então, o sadismo se torna difícil de encarar.

Ainda mais do que isso, questões como o machismo estrutural causador de toda a situação são refletidas de maneira clara no pai da garota (Channing Tatum), mas o filme não ousa mostrar alguma relação entre as situações, escolhendo por um discurso do pai protetor em relação à menina. Ao falhar em apontar essa semelhança tão simples, o próprio discurso do longa acaba caindo por terra. O mesmo acontece com a completa ausência de sutileza nas mudanças de Josephine, que indicam a necessidade de causar uma impressão forte como um elemento maior do que tratar o abuso sexual e o trauma infantil de forma responsável.

Não apenas por fazer o espectador se sentir mal, mas por poder fazer com que pessoas que são igualmente vítimas possam passar novamente por situações desagradáveis, Josephine se torna um filme quase grosseiro, o oposto do primeiro longa da diretora. 

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