The Calf Doll (Índia, 2026)
Título Original: The Calf Doll
Direção: Ankur Hooda
Roteiro: Ankur Hooda
Duração: 90 minutos
Assistido em: CPH:DOX
Como brasileiros, temos pouco acesso à cultura indiana. Claro, sabemos os estereótipos de Bollywood, a explosão de cores de festivais Holi e temos uma noção mínima sobre alguns hábitos e costumes, e há um elemento que sempre chama a atenção do mundo ocidental, justamente por ser uma grande diferença cultural: o tratamento de vacas como animais sagrados.Talvez, justamente por utilizar essa noção muito geral que o resto do mundo tem sobre a o país ao seu favor, The Calf Doll consiga rapidamente encantar seus espectadores mesmo quando sentimos que não compreendemos com profundidade aquele contexto cultural.

Em um pequeno vilarejo da Índia, uma vaca dá à luz a um bezerro natimorto, e deixa de produzir leite por conta disso. Isso gera um grande problema na família do Professor (Mst. Satbir Singh Hooda), que depende da vaca como certa fonte de renda, e faz com que ele recorra a algo proibido no país, que é a criação de uma boneca a partir do couro do bezerro morto, para tentar fazer com que a vaca volte a ser produtiva. Uma proposta narrativa simples, mas com bastante significado em um país no qual esse estilo de vida rural parece cada vez mais ameaçado pela urbanização.
Considerando que esse filme vem da cobertura de um festival de documentários, aqui também pode surgir a pergunta sobre ele trazer uma ficção. A grande questão é que, apesar de seguir uma história base inventada, o filme traz um grau de autoficção: os atores na realidade são os seus avós, no vilarejo onde eles moram e convivendo com pessoas que vivem ali. A história foi criada conjuntamente, conforme os dias passaram, em um esquema de filmagem de guerrilha com pouco dinheiro e muita vontade de fazer o filme – e aqui, é um assunto que o espectador brasileiro conhece bem por conta de “Uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”.
Mas esse baixo orçamento nunca transparece em tela. Seja pela escolha de filmar com certo tempo, ou pela direção de fotografia primorosa, o seu visual é claramente um de seus pontos altos. Já nos primeiros momentos, entendemos que o filme trará uma linguagem mais poética quando traz alguns acontecimentos em telas pretas com escritas e desenhos. Felizmente, há a escolha de não mostrar o bezerro natimorto, e essa técnica faz com que se compreenda o que aconteceu na mesma medida em que também coloca um tom de fábula ao longa. Quando temos as suas primeiras imagens, de uma cidade coberta pelo smog (névoa de poluição), esse tom é apenas reforçado, com os tons de azul predominantes e com pouco contraste trazendo algo bem diferente dos estereótipos ocidentais sobre o país.
Seus planos longos, com poucos cortes, que parecem indicar mais sobre o estado interno dos personagens e suas reflexões às quais não temos acesso, apenas imaginamos, fazem com que se entre um pouco neste ritmo de vida que está sendo retratado, sem a necessidade de grandes explicações explícitas sobre isso. Temos uma câmera sempre estável, mesmo quando em movimento, levando a esse tom de monotonia que contrasta bem com o ritmo das grandes cidades. O filme também se mostra extremamente consciente das suas escolhas artísticas, desde cenas mais experimentais que mesclam ruídos da televisão antiga para criar um pesadelo, até uma decisão de, ao invés de utilizar cortes brutos entre uma imagem e outra, dissolver o plano anterior no novo que é apresentado. Tudo isso apenas ajuda na criação de uma atmosfera extremamente distinta, e até mesmo o celular, que é trazido como elemento simples na produção, tem o seu papel perturbador daquele ritmo de vida.
Isso também é bem perceptível no trabalho de som imersivo realizado. Na primeira cena, por exemplo, ouvimos apenas o mugido da vaca sem saber exatamente o que está acontecendo. Em outros momentos, temos o som ensurdecedor do trem que passa ao fundo – novamente, criando o contraste entre a pacata cidade e aquela urbanização ao seu redor. Essa mensagem principal é tratada por todos os elementos do filme, reforçando a ideia, mas o fazendo de maneira mais sensível do que forçada.
Assim, o filme consegue trazer uma visão bastante diferente daquela geral sobre o cinema indiano através de uma situação extremamente específica, mas que no fundo traz um questionamento sobre um movimento global do fim de um estilo de vida específico no qual o tempo tem certa dilatação.



