Crítica | XXII FantasPoa | Compliance

Compliance (Estados Unidos, 2026)

Título Original: Compliance
Direção: Kyle Mangione-Smith
Roteiro: Kyle Mangione-Smith
Elenco principal: Megan Wilcox, Lindsey Normington, Charlie Wood
Duração: 104 min

Dentre os muitos debates entre a vida contemporânea, a discussão sobre o excesso de exposição às telas parece não deixar de ser uma pauta quente. Só que Compliance brinca com o outro lado dessa realidade, uma vez que a maioria dessas telas também está ligada a uma câmera, pensada para registrar cada momento da rotina das pessoas. Nesse contexto, o que poderia ser um filme de found footage, subgênero de terror popularizado nos anos 1990 por A Bruxa de Blair (1999) que lida com filmagens encontradas após acontecimentos potencialmente assustadores?

Compliance vem com uma resposta atualizada do gênero. Temos o dia de uma personagem, Sam (Megan Wilcox), se iniciando mais cedo por conta de uma emergência de trabalho, e já acompanhamos isso pelo circuito de câmeras de segurança da sua casa. Passamos para a tela do seu computador quando ela o utiliza para compreender o acontecimento em questão, e a cada novo acontecimento vamos acompanhando o desenrolar dos fatos a partir de um novo ângulo, sempre relacionado ao cenário de hipervigilância atual. Das câmeras de segurança do seu Tesla até imagens capengas de gravações de espaços públicos, o filme já inicia a sua linguagem com uma provocação sobre essa ausência de privacidade.

Mais do que isso, quando a história começa a se desenvolver, compreendemos que ela trabalha para uma plataforma de aluguel de casas de curta temporada lidando com uma crise por conta do estupro de uma mulher em uma propriedade parceira. Entre lidar com a polícia e chefe, ela é a responsável por falar com a vítima e praticamente fazê-la assinar um contrato de confidencialidade, algo eticamente um tanto questionável. Então, vamos aos poucos compreendendo que mais do que apenas um jogo de linguagem por conta do uso das câmeras e telas, o filme também é um ataque direto ao modo de vida estadunidense médio. A cada nova cena, ele vai apresentando questões que ao mesmo tempo que parecem absurdas, também soam estranhamente plausíveis. De teorias de conspiração sobre desaparecimentos de pessoas até redes ocultas de influência, a tensão cresce nos espectadores ao lembrar de fatos recentes como o caso Epstein.

Por nos colocar como esse espectador direto dos acontecimentos por conta das câmeras e telas presentes, o filme brinca com o próprio voyeurismo do cinema e sua relação com a vida real de quem assiste. Ele nos coloca como cúmplices dos acontecimentos e através de diversos pontos de vista, complexificando uma questão que poderia ser tomada a partir de um ponto de vista mais individual. Quando vamos entendendo que essa é uma questão com diversos pontos de contato, compreendemos que o filme também está falando sobre todo o sistema capitalista no qual a ótica da mercadoria faz com que as relações humanas desapareçam. Seja pela falta de uma rede de apoio que ajude a pessoa a sair de uma situação mais complexa, ou até pela lógica de que cada indivíduo apenas faz o que precisa para sobreviver a cada dia, somos sugados por essa lógica que mercantiliza as relações. Somos testemunhas do desenrolar dos acontecimentos, sem nenhuma escolha que não seja olhar para a tela e seguir em uma espiral de loucura dos personagens.

Existem questões polêmicas dentro da obra que merecem uma discussão mais profunda, como a necessidade da representação da violência contra a mulher em tela. Até neste sentido, por ter essa câmera que não pode reagir aos acontecimentos, tudo se torna ainda mais aflitivo. No entanto, quando pensamos em todo o cenário do longa-metragem, acabamos comprando as dores dessa protagonista e querendo compreender as lógicas finais de suas ações. Novamente, é a linguagem que força essa relação, mostrando como o diretor tem um bom controle técnico do que quer apresentar. Escolher falar sobre esses EUA corporativos nos quais todas as relações de uma pessoa estão ligadas ao seu trabalho faz com que sintamos a solidão da personagem e, de alguma forma, queiramos acolhê-la.

Considerando um filme de baixo orçamento, também é impossível não apreciar o nível de atenção aos detalhes que a obra apresenta. Dos horários das câmeras que seguem a continuidade até os ruídos de imagem e som que são apresentados a depender do tipo de gravação, tudo isso vai criando mais fidelidade ao realismo e aprofundando a experiência de que aquilo poderia acontecer no mundo real. Ainda que a obra pareça hesitar um pouco em encontrar o seu final, tendo algumas cenas que o antecedem sendo mais eficientes do que o final em si, é difícil não se sentir representado de alguma forma naquelas telas.

Uma estreia mundial do festival com bastante potencial de criar discussões acaloradas por onde passa, Compliance é um ótimo exemplo de um grande filme com um baixo orçamento.

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