Dead Eyes (Austrália, 2026)
Título Original: Dead Eyes
Direção: Richard E. Williams
Roteiro: Richard E. Williams
Elenco principal: Rijen Laine, Charles Cottier, Alea O’Shea, Mischa Heywood, Stephen Phillips e Ana Thu Nguyen
Duração: 81 min
As experimentações com linguagens talvez sejam um dos elementos que mais se destacam quando estamos pensando em um festival de cinema fantástico. Se já existe uma infinidade de obras que tratam dos medos mais primais da humanidade, ter um elemento que o destaque indiscutivelmente do resto pode ser um diferencial que dá uma nova vida ao filme, e é nisso que Dead Eyes se apoia.

O longa-metragem se passa completamente através dos olhos de seu personagem principal, fazendo com que o espectador consiga viver em primeira pessoa aquilo que ele está experienciando. Começamos a obra já compreendendo que esta vai ser a sua dinâmica, com todos ao seu redor atuando diretamente para a câmera, criando uma imersão bem particular. Mesmo com essa particularidade, a obra mostra bastante conhecimento sobre como contar a história, evitando uma narração em off constante que poderia torná-lo cansativo. Temos um andamento mais controlado porque o personagem principal apresenta uma certa confusão mental, e isso permite que possamos conhecer esse universo de uma maneira mais controlada.
Ainda que seja quase inimaginável o trabalho de filmagem de uma obra com essa câmera acompanhando, de fato, o ator, isso é essencial para a criação da atmosfera de medo que é proposta. Existe algo entre o estado mental confuso, as sequências de pesadelo e a noção da nossa falta de controle que fazem com que a atmosfera fique particularmente assustadora. Como disse o diretor após a exibição, ele quis brincar com a sensação de jogos de videogame de terror em primeira pessoa com a diferença de que, por se tratar de um filme, ao ficar com medo o espectador não pode simplesmente desligar o controle e parar aquela experiência.
No longa, um casal e seus amigos vão em busca do pai do protagonista, que está desaparecido, pois acreditam que ele possa estar em algum lugar de uma floresta na qual eles iam acampar quando eram jovens. Entre pesadelos e a realidade assustadora de estar em um local isolado, vai se trabalhando também algo sobrenatural que ronda aquele espaço. Então, mesmo que a obra tenha uma cronologia um tanto confusa em relação aos acontecimentos que precedem o filme, é dada maior atenção aos acontecimentos daquele espaço-tempo específico. É apenas quando vamos pensar melhor sobre os acontecimentos que percebemos alguns furos de roteiro que fogem da lógica interna apresentada pelo próprio filme.
Ao mesmo tempo, enquanto o filme está acontecendo, seria até difícil encontrar um momento para pensar nisso. Existe uma grande preocupação com a imagem e som que estão sendo apresentados, que fazem com que a experiência seja bastante rica. De figuras que são legitimamente assustadoras, passando por sons bem pensados para ajudar na criação do clima e chegando a uma cena de viagem de cogumelos que rivaliza com algumas das melhores apresentadas nos cinemas, há um grande estímulo para que espectadores continuem vidrados nos acontecimentos.
A grande questão, ao acender das luzes, é se isso é o suficiente para garantir a experiência de terror. Com um final que parece apressado e alguns problemas de estrutura, a obra acaba caindo em um espaço no qual ela certamente será lembrada pela ousadia técnica, mas não por sua narrativa. Não que exista uma necessidade de estar perfeito em todos os aspectos, mas o desequilíbrio também se torna mais claro dado o primor visual – o que é, ao mesmo tempo, bom e ruim para o próprio filme.




