Crítica | Michael

Michael (EUA/Reino Unido, 2026)

Título Original: Michael
Direção: Antoine Fuqua
Roteiro: John Logan
Elenco principal: Jaafar Jackson, Juliano Valdi, Colman Domingo, Nia Long, Miles Teller, Laura Harrier, Kat Graham e Larenz Tate.
Duração: 127 minutos (2h 07min)
Distribuição: Universal Pictures

Sempre que houver o lançamento de uma nova biografia musical, haverá uma nova movimentação da crítica de cinema em se perguntar qual a necessidade de mais uma e se ela será novamente a repetição de uma fórmula que já está muito batida. Com Michael, isso não seria diferente se não fosse por um detalhe: Michael Jackson ainda é um nome capaz de mover multidões de fãs. Mesmo passados mais de 10 anos de sua morte, ele segue sendo o cantor preferido de muitas pessoas, e sua vida cheia de polêmicas segue sendo assunto de mesas de bar, séries, documentários e todo o espólio familiar.

O que o filme decide fazer para contornar esse elemento é utilizar um recorte temporal que vai desde o nascimento do cantor até o final dos anos 1980, quando ele corta os vínculos de trabalho com a família e realmente se joga na carreira solo. Convenientemente coincidentemente, isso também acontece antes de aparecerem as primeiras alegações de pedofilia do pai de Jordan Chandler em 1993. Ou seja, é uma obra que aborda o período da infância do cantor até o início de sua fase de sucesso, sem passar pelos pontos mais espinhosos de sua carreira.

Uma das melhores escolhas do filme foi a de chamar Jaafar Jackson, sobrinho de Michael, para o papel principal. Além de uma óbvia semelhança familiar, o ator também consegue realizar a incorporação de movimentos e trejeitos que dão a ilusão de seu retratado, mas sem parecer uma caricatura. Principalmente nos momentos de dança, que são os mais conhecidos por qualquer pessoa que nem seja fã de Michael Jackson, ele mostra uma mistura de boa preparação com reconhecimento espacial para gerar uma boa performance para as câmeras. Isso é somado a um roteiro que também apresenta ao público uma visão um pouco mais aprofundada sobre a figura misteriosa do cantor, de sua fixação com os animais como seus amigos à sua grande dificuldade em impor limites à sua família. É dado esse vislumbre um pouco mais pessoal que era difícil de conhecer durante a sua vida. O que é mais complicado nesse sentido é a sua relação com crianças, que é posta como completamente inocente neste primeiro momento, colocando essa postura defensiva óbvia dada a necessidade de aprovação da família ao longa. Novamente entramos na categoria de biografias chapa branca pela necessidade de lidar com os direitos sobre a vida do retratado.

Também nesse sentido, acontecem algumas questões complicadas, como o apagamento completo da irmã Janet Jackson da obra. Com todos os outros irmãos colocados como um apêndice sem características que os distingam entre eles, aparentemente a cantora pediu a sua retirada da biografia.

A grande questão é que essa é uma obra que mostra uma forma quase fabular de uma criança que sai da pobreza em direção ao estrelato, e utiliza os contrastes mais elevados para fazê-lo. Se já na primeira cena temos uma longa sequência que mostra as crianças do bairro se divertindo brincando na neve enquanto ele e seus irmãos precisavam ensaiar, essa é uma estrutura que irá se repetir ao longo da obra para mostrar o quanto ele também precisou abrir mão para ocupar o espaço que ocupou. Inclusive, ele passará por todos os momentos mais relevantes da biografia em alguma variação desta fórmula, sempre acompanhado também de uma trilha sonora dramática insistente.

Considerando que ele deixa de lado os momentos mais controversos da carreira do cantor e que cria a sua narrativa justamente como quem está criando uma lenda, Michael é eficiente ao fazê-lo e certamente agradará aos fãs desejosos de ver seu ídolo em telas. Entretanto, talvez por uma questão de marketing, não está acontecendo uma veiculação que deixe claro que o filme lida com um período específico, até porque existe um boato de um segundo filme que lida com o que acontece após 1990. Se isso foi verdade, já me sinto ansiosa em como o diretor lidará com transformar a lenda que ele cria nesta primeira metade em uma figura controversa como a que observamos nas notícias das décadas seguintes.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima