Body Blow (Austrália, 2025/2026)
Título Original: Body Blow
Direção: Dean Francis
Roteiro: Dean Francis
Elenco principal: Tim Pocock, Tom Rogers, Paul Capsis, Sacha Horler, Chris Haywood, Georgina Haig e Kween Kong
Duração: 99 min
Body Blow não é um thriller básico. Isso é perceptível desde as primeiras cenas, nas quais somos apresentadas para personagens LGBTQ+ que trabalham em uma divisão específica da polícia, o clima nostálgico das obras dos anos 1990 se mistura com um frescor atualizado, e isso vai apenas se aprofundando na medida em que a obra segue em tela.

Somos apresentados ao protagonista, Aiden (Tim Pocock), e ao universo peculiar que ele habita. Ao mesmo tempo em que ele é parte de uma divisão da polícia voltada a agentes LGBT, ele tem uma vida simples nos subúrbios de Sydney onde cria galinhas e parece fazer do celibato uma parte essencial da sua existência. Isso já causa um grande estranhamento porque, em pleno 2026, seu discurso soa praticamente como uma espécie de red pill gay. Essa habilidade em criar personagens peculiares é reproduzida para praticamente cada um dos outros habitantes do filme. Temos a policial lésbica que rapidamente troca o trabalho por um sexo rápido, o mafioso cuja fachada para lavagem de dinheiro é um grande bar de drag queens, o jovem trabalhador sexual viciado em heroína que busca ser libertado do destino por um amor verdadeiro: ou seja, todos os estereótipos que poderíamos ter um thrillers mais tradicionais sendo atualizados para um universo queer.
O roteirista e diretor demonstra um conhecimento vasto sobre o gênero que utiliza para a sua obra, conseguindo navegar tranquilamente entre os clichês para subvertê-los. Mais do que isso, ele desenvolve toda uma estética específica para o longa que o torna tanto plausível quanto bastante apelativo para a audiência que o assiste.
Ao invés dos recentes filmes com cores dessaturadas e o crime cinzento, ele cria uma atmosfera neo-noir que ao mesmo tempo intriga e entretém. Vemos muito pouco da cidade sendo apresentado durante o dia, mas durante a noite, tudo brilha. Da maquiagem impecável das drag queens do bar até a fumaça que se torna rosa por conta da iluminação, entramos em uma espécie de sonho febril. O contraponto fica na existência do próprio protagonista, que é minimalista, com uma casa austera, e que logo nas primeiras cenas nos é apresentado passando a sua camisa antes de ir para o trabalho. Toda a emoção do filme está focada na sua jornada em começar a compreender melhor a sua própria natureza assim como este mundo à sua volta.
É necessário comentar também sobre o quanto este filme traz de boa representação do desejo sexual nas telas, algo que também era muito presente nesses thrillers dos anos 1990. Mas, novamente, ao invés de simplesmente replicar uma fórmula ligada ao que era o desejo sexual padrão da década, ele faz essa atualização com esse universo LGBT que visa representar. É inegável que, considerando o quanto a nossa sociedade está encontrando dificuldades em lidar com o próprio tesão em telas na atualidade, essa obra consegue se destacar por ousar mostrar um instinto humano absolutamente natural.
As atuações principalmente do protagonista, Tim Pocock, e de Tom Rogers, seu par romântico, conseguem ajudar o espectador a passar por toda essa jornada emocional e sexual de maneira bastante convincente, até por conta do claro desejo que eles demonstram um pelo outro em tela. O papel de mafioso drag queen entregue a Paul Capsis também é brilhantemente interpretado, com o equilíbrio entre suavidade e rigidez encontrando o tom perfeito a cada vez que Fat Frankie entra em tela.
Assim, é fácil compreender a atenção que o filme e o cineasta têm recebido da crítica internacional, justamente por saber lidar com um gênero que já foi muito popular, mas dando o seu próprio toque a ele.



