Crítica | 79º Festival de Cannes | La Bola Negra

La Bola Negra (Espanha, França, 2026)

Título Original: La bola negra

Direção: Javier Ambrossi, Javier Calvo

Roteiro: Javier Ambrossi, Javier Calvo, Alberto Conejero (baseado no texto inacabado de Federico García Lorca e na peça “La piedra oscura”)

Elenco principal: Guitarricadelafuente, Miguel Bernardeau, Carlos González, Milo Quifes, Penélope Cruz, Glenn Close, Julio Torres

Duração: 157 minutos (2h 37min)

Para uma pessoa que acompanha bastante a cultura queer e é viciada em programas de competição, Javier Calvo e Javier Ambrossi não são nomes desconhecidos. Além de eles já terem dirigido séries de alcance global como Veneno, eles também foram jurados fixos do programa RuPaul’s Drag Race: Espanha por um longo período. Assim, vê-los em uma das maiores competições globais de cinema com um filme que lida com guerras e o amor entre dois homens nesse contexto é surpreendente, mas não tanto.

Nos surpreendemos ao perceber que a história é contada em três tempos, e é apenas no terço final do filme que vamos compreender como elas acabam se relacionando. Temos em 1932 o jovem Carlos (Milo Quifes) que está querendo entrar em um clube de elite e depende da aprovação dos membros; em 1937 Sebástian (Guitarricadelafuente), um soldado nacionalista, que se apaixona pelo prisioneiro republicano Rafael (Miguel Bernardeau); e em 2017 Alberto (Carlos González), um pesquisador que decide compreender melhor o passado de seu próprio avô. Com essas três linhas do tempo, eles conseguem explorar bastante sobre a questão da memória e da resistência da comunidade LGBTQ+ dentro de Espanha.

Lidar com uma história que se passa em três tempos já é uma tarefa complicada, e conseguir interligá-las de maneira adequada e satisfatória para quem assiste aumenta essa dificuldade. No entanto, Los Javis conseguem conseguem fazer isso tranquilamente, ainda sem soar excessivamente didáticos. Eles criam três histórias com narrativas bastante distintas, e até estéticas diferenciadas (mesmo as que estão em períodos históricos mais próximos) que ajudam a compreensão clara de quando a montagem está alternando de uma para outra.

Algo perceptível no filme é um certo orgulho espanhol, algo que raramente é colocado em tela. Não se trata de um orgulho reacionário e que tenta minimizar os absurdos da Guerra Civil espanhola, mas sim um desejo dos diretores de conseguir contar uma história que ressoe com o seu país de origem. Assim, desde a mistura de uma atriz consagrada como Penélope Cruz misturada com diversas caras novas no cinema global, até o uso de referências específicas como o conto inacabado de Federico García Lorca e a música militar Soldadito Español, que está nas primeiras cenas em uma belíssima composição, eles tentam colocar uma realidade em tela como uma forma de reacender uma discussão sobre o passado do país para que eles possam superar seus traumas passados e seguir para uma nova cinematografia. De certa forma, isso dialoga bastante com o nosso cinema nacional ao conseguir retratar um momento de caos político para nomear os crimes que aconteceram e tentar seguir em frente.

Só que aqui, isso é feito de forma espetacular. Seja na primeira história, na qual a composição se coloca como muito importante para conseguir ressaltar uma atmosfera de luxo, na segunda e o seu melodrama violento cheio de reviravoltas ou na terceira, mais contemporânea, mas que brinca com a noção de redescoberta da sua própria história, existe sempre alguma cena que certamente ficará marcada na memória dos espectadores por ser visualmente muito impactante.  O uso que eles fazem do espaço e da iluminação natural junto à diretora de fotografia Gris Jordana consegue causar uma honesta comoção em quem assiste.

Assim, o filme passa de histórias individuais de indivíduos gays para toda uma reflexão sobre os avanços e retrocessos dessa comunidade em um país que, novamente parecido com o Brasil, ainda é bem fragmentado devido à uma parcela conservadora da sociedade.

In English, translated by Renata Torres:

The Black Ball (Spain, France, 2026)

Original Title: La bola negra

Directors: Javier Ambrossi, Javier Calvo

Screenplay: Javier Ambrossi, Javier Calvo, Alberto Conejero (based on the unfinished text by Federico García Lorca and the play “La piedra oscura”)

Main Cast: Guitarricadelafuente, Miguel Bernardeau, Carlos González, Milo Quifes, Penélope Cruz, Glenn Close, Julio Torres

Running Time: 157 minutes

For someone who closely follows queer culture and is addicted to competition shows, Javier Calvo and Javier Ambrossi are not unknown names. Besides having directed globally acclaimed series like Veneno, they were also permanent judges on RuPaul’s Drag Race: Spain for a long period. So, seeing them in one of the biggest global film competitions with a film that deals with war and the love between two men in that context is surprising, but not entirely.

We are surprised to realize that the story is told in three time periods, and it is only in the final third of the film that we understand how they end up relating. In 1932 we have young Carlos (Milo Quifes) who wants to join an elite club and depends on the approval of its members; in 1937, Sebastián (Guitarricadelafuente), a nationalist soldier, falls in love with the Republican prisoner Rafael (Miguel Bernardeau); and in 2017, Alberto (Carlos González), a researcher who decides to better understand his own grandfather’s past. With these three timelines, they manage to explore quite a bit about the issue of memory and the resistance of the LGBTQ+ community within Spain.

Dealing with a story that takes place in three time periods is already a complicated task, and managing to interconnect them in an appropriate and satisfying way for the viewer increases this difficulty. However, Los Javis manage to do this smoothly, without sounding overly didactic. They create three stories with quite distinct narratives, and even different aesthetics (even those set in closer historical periods) that help to clearly understand when the editing is switching from one to another.

Something noticeable in the film is a certain Spanish pride, something rarely shown on screen. This isn’t a reactionary pride that tries to minimize the absurdities of the Spanish Civil War, but rather a desire on the directors’ part to tell a story that resonates with their country of origin. Thus, from the mix of a renowned actress like Penélope Cruz with several new faces in global cinema, to the use of specific references such as Federico García Lorca’s unfinished short story and the military song Soldadito Español, which appears in the opening scenes in a beautiful composition, they attempt to portray a reality on screen as a way to rekindle a discussion about the country’s past so that they can overcome their past traumas and move towards a new cinematic approach. In a way, this resonates strongly with our national cinema, managing to portray a moment of political chaos in order to name the crimes that occurred and try to move forward.

But here, it’s done spectacularly. Whether in the first story, where composition is crucial to highlighting an atmosphere of luxury, in the second with its violent melodrama full of twists and turns, or in the third, more contemporary but which plays with the notion of rediscovering one’s own story, there’s always a scene that will certainly remain etched in the viewers’ memory for being visually very impactful. Their use of space and natural lighting, along with cinematographer Gris Jordana, manages to evoke genuine emotion in the viewer.

Thus, the film moves from individual stories of gay individuals to a reflection on the advances and setbacks of this community in a country that, similar to Brazil, is still quite fragmented due to a conservative segment of society.

Obrigada, Aline Guevara, pelo apoio! Se você quiser ver o seu nome nas próximas críticas, não esqueça que o financiamento coletivo segue aberto em https://www.kickante.com.br/financiamento-coletivo/ajude-o-no-sofa-com-gatos.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima