Crítica | 79º Festival de Cannes | Natal Amargo

Natal Amargo (Espanha, 2026)

Título Original: Amarga Navidad 

Direção: Pedro Almodóvar

Roteiro: Pedro Almodóvar

Elenco principal: Bárbara Lennie, Leonardo Sbaraglia, Aitana Sánchez-Gijón, Victoria Luengo, Patrick Criado, Milena Smit, Quim Gutiérrez, Carmen Machi, Gloria Muñoz, Rossy de Palma

Duração: 112 minutos (1h 52min)

Aviso: esse texto pode conter spoilers sobre o filme.

Pedro Almodóvar é um nome que sempre será referenciado dentro do cinema espanhol, tanto pelo seu início de carreira como um rebelde até a sua capacidade única de contar histórias sobre mulheres de forma sensível. Com Natal Amargo, isso ganha ainda mais uma camada, refletida em seu título internacional Autofiction. O gênero literário da autoficção lida com o recontar de sua própria biografia utilizando técnicas e momentos de ficção, e é justamente isso o que o personagem Raúl Durán (Leonardo Sbaraglia) faz para conseguir lidar com as suas próprias dores existenciais.

Temos duas histórias sendo contadas. A primeira é a de Raúl, o escritor que se encontra em um bloqueio criativo e precisa lidar com a demissão de sua assistente de muitos anos, seu próprio envelhecimento e com um problema de saúde. Na outra, temos Elsa (Bárbara Lennie), uma mulher que perde a mãe nessa época de Natal, se sobrecarrega de trabalho para não lidar com o luto e acaba, em meio a crises de pânico, indo se isolar com uma amiga passando por uma separação nas Ilhas Canárias para se restabelecer. Em determinado momento, essas histórias se cruzam e acabamos lidando com o real motivo do filme: a discussão sobre o ego de um artista e qual o limite do que ele pode fazer com a realidade para criar suas obras de ficção.

Ainda que haja um aviso de spoiler, tento aqui não falar excessivamente sobre a trama do filme porque é parte importante da experiência poder ir descobrindo como essas duas histórias se mesclam para criar essa reflexão que parece focada na própria figura do Almodóvar após muitos anos produzindo seus próprios roteiros e filmes. Essa é, aliás, uma autorreflexão muito comum dentro da arte, mas que nem sempre está tão explicitada dentro de uma produção artística, mostrando novamente uma faceta corajosa do diretor logo após dirigir o seu primeiro filme em língua inglesa.

Mesmo que, de maneira geral, haja uma narrativa mais tradicional, existem alguns momentos específicos que relembram um início de carreira mais desafiador do cineasta, como o momento em que Elsa e sua amiga Patricia (Victoria Luengo) param para assistir Chavela Varga cantando a canção que dá título ao filme. Existe aqui novamente um uso de metalinguagem, com outra arte, a música, sendo utilizada pelas personagens como algo essencial para compreender a sua própria vida e decidir qual será o seu próximo passo em relação à própria vida. É utilizar a ficção para nos lembrar como as artes são importantes para as decisões de nossas próprias vidas, colocado em cena de maneira extremamente sensível e lidando com a amizade feminina como fonte de força para tomar decisões difíceis.

É impressionante como o diretor usa todos os seus anos de experiência para criar uma obra introspectiva, mas ainda assim acessível mesmo a quem não conhece nada de sua cinematografia por tratar de um tema universal. Ainda que esteja muito longe de suas narrativas mais excêntricas, aqui ele traz seu amadurecimento como ponto de partida para uma história que discute algo muito contemporâneo, que são os limites da arte e do artista.

Se o espectador topa entrar nesse processo com o diretor, o filme se torna uma experiência igualmente emocionante e reflexiva. Ao que não aceita a estrutura proposta, ele pode parecer mais frio e distante, algo que descola das obras anteriores e que poderia ser até um rompimento com o seu estilo até o momento.

In English, translated by Renata Torres:

Bitter Christmas (Spain, 2026)

Original Title: Amarga Navidad

Director: Pedro Almodóvar

Screenplay: Pedro Almodóvar

Main Cast: Bárbara Lennie, Leonardo Sbaraglia, Aitana Sánchez-Gijón, Victoria Luengo, Patrick Criado, Milena Smit, Quim Gutiérrez, Carmen Machi, Gloria Muñoz, Rossy de Palma

Running Time: 112 minutes

Warning: This text may contain spoilers about the film.

Pedro Almodóvar is a name that will always be referenced within Spanish cinema, both for his early career as a rebel and for his unique ability to tell stories about women in a sensitive way. With Bitter Christmas, this gains yet another layer, reflected in its international title Autofiction. The literary genre of autofiction deals with retelling one’s own biography using fictional techniques and moments, and that is precisely what the character Raúl Durán (Leonardo Sbaraglia) does to cope with his own existential pain.

We have two stories being told. The first is that of Raúl, the writer who finds himself in a creative block and needs to deal with the dismissal of his long-time assistant, his own aging, and a health problem. In the other, we have Elsa (Bárbara Lennie), a woman who loses her mother at Christmas time, overloads herself with work to avoid dealing with grief, and ends up, amidst panic attacks, isolating herself with a friend going through a separation in the Canary Islands to recover. At a certain point, these stories intersect, and we end up dealing with the real reason for the film: the discussion about the ego of an artist and the limits of what they can do with reality to create their works of fiction.

Although there is a spoiler warning, I try not to talk excessively about the film’s plot because it’s an important part of the experience to discover how these two stories intertwine to create this reflection that seems focused on Almodóvar himself after many years producing his own screenplays and films. This is, incidentally, a very common self-reflection within art, but one that is not always so explicitly shown in an artistic production, once again demonstrating a courageous facet of the director shortly after directing his first English-language film.

Even though, in general, there is a more traditional narrative, there are some specific moments that recall a more challenging start to the filmmaker’s career, such as the moment when Elsa and her friend Patricia (Victoria Luengo) stop to watch Chavela Varga singing the song that gives the film its title. Here again, there is a use of metalanguage, with another art form, music, being used by the characters as something essential to understanding their own lives and deciding what their next step will be. It uses fiction to remind us how important the arts are to the decisions of our own lives, portrayed in an extremely sensitive way and dealing with female friendship as a source of strength to make difficult decisions.

It’s impressive how the director uses all his years of experience to create an introspective work, yet still accessible even to those unfamiliar with his filmography, as it deals with a universal theme. Although far from his more eccentric narratives, here he brings his maturation as a starting point for a story that discusses something very contemporary: the limits of art and the artist.

If the viewer is willing to enter this process with the director, the film becomes an equally moving and reflective experience. To those who don’t accept the proposed structure, it may seem colder and more distant, something that sets it apart from his previous works and could even look like a break with his style.

Obrigada, Aline Guevara, pelo apoio! Se você quiser ver o seu nome nas próximas críticas, não esqueça que o financiamento coletivo segue aberto em https://www.kickante.com.br/financiamento-coletivo/ajude-o-no-sofa-com-gatos.

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