Minotaur (França, Letônia, Alemanha, 2026)
Título Original: Минотавр (Minotaur)
Direção: Andrey Zvyagintsev
Roteiro: Simon Lyashenko, Andrey Zvyagintsev
Elenco principal: Dmitriy Mazurov, Iris Lebedeva, Varvara Shmykova, Juris Žagars, Anatoliy Beliy, Vladimir Friedman, Anastasia Mischenko, Yuriy Zavalnyouk
Duração: 141 minutos (2h 21min)
O mito original do minotauro é muito conhecido pela cultura popular e inclusive foi novamente citado dentro da estrutura do filme Minotaur. Temos um ser metade homem e metade touro que é aprisionado em um labirinto por representar uma vergonha para os seus pais. Como ele se alimenta exclusivamente de carne humana, por uma questão geopolítica os Atenas enviava jovens para serem devorados a cada 9 anos pelo monstro em Creta.

Adaptar essa história para a Rússia atual é um trabalho intenso e que exige uma visão bastante crítica sobre a situação do país, algo possível para Andrey Zvyagintsev apenas porque atualmente ele é considerado um traidor da pátria que vive em exílio. Em seu novo filme, ele utiliza o estilo cinematográfico já consolidado para colocar essa metáfora tanto em uma camada mais profunda, do país como esse espaço que exige o sacrifício de jovens, como em uma esfera privada, da necessidade de permanecer dentro do labirinto e alimentando o monstro para não perder os privilégios que essa vida permite.
Isso é colocado a partir da história de um casal, Gleb (Dmitriy Mazurov) e Galina (Iris Lebedeva), que vivem em Moscou em uma posição bastante confortável mesmo em meio à guerra por conta do trabalho de Gleb como chefe de uma empresa de transportes. Só que Gleb recebe uma ordem dos militares que precisa entregar uma lista de catorze funcionários para serem alistados, justamente por manter boas relações com o governo, que acaba permitindo a ele que sejam escolhidas pessoas que não iriam piorar a situação de seus negócios. Ao mesmo tempo, ele lida com uma crise pessoal na medida em que acredita que sua esposa está tendo um caso extraconjugal.
Com isso, ele vai conseguindo formar uma trama que foca na impunidade da elite financeira russa em troca de seu silêncio sobre os acontecimentos no país. Misturando um drama doméstico com o drama político mais amplo, ele ainda coloca uma repetição dos padrões mais amplos nessa esfera individual, mostrando como esse ciclo consegue se repetir. Ainda mais que isso, consegue colocar na relação desses pais com o jovem Seryozha (Artemiy Spiridonov) como esse tipo de cumplicidade acaba sendo passado como um valor familiar.
Tudo isso é colocado em um estilo bem específico, que apresenta Moscou como um espaço cinzento e sem vida, e usa enquadramentos específicos para transformar até os espaços mais abertos nesse labirinto que ele deseja replicar. Utilizam-se as linhas mais retas, com ângulos precisos, para simular esse espaço invisível. Até o modo que o zoom é utilizado nas cenas em que se faz necessário é com uma aproximação lenta e persistente, ressonando com essa ideia de uma pressão incessante sobre os personagens. Há apenas poucas cenas que fogem desse padrão, que são cenas específicas nas quais Galina está vivendo seus momentos de felicidade. Ali, é utilizada uma câmera mais dinâmica e a fotografia com tons mais quentes, justamente para colocar esse momento como uma oposição a todo o resto do filme.
Soma-se a este elemento técnico o excelente uso que se faz do som. Em todos os espaços, existem televisões ligadas que estão passando notícias que imaginamos serem sobre a guerra, ou até mesmo no início do filme, há um momento em que Gleb vê uma funcionária assistindo um vídeo de explosões. Isso é colocado como um contraste à ausência de uma trilha sonora, implicando em uma ausência de um guia para o tom das cenas. Temos apenas os sons de carros, respiração, diálogos e propagandas como plano de fundo. Ainda há um elemento de isolamento de Seryozha através de seus fones de ouvido, com os quais ele pode simplesmente se alienar do resto do mundo.
Assim, técnica e narrativa ajudam para construir um filme perturbador sobre a realidade russa, a qual temos pouco acesso por conta da distância geográfica. O diretor consegue passar exatamente a sua mensagem sobre seu país de origem e novamente colocar os olhos do mundo para essa perturbadora situação.
In English, translated by Renata Torres:
Minotaur (France, Latvia, Germany, 2026)
Original Title: Минотавр (Minotaur)
Director: Andrey Zvyagintsev
Screenplay: Simon Lyashenko, Andrey Zvyagintsev
Main Cast: Dmitriy Mazurov, Iris Lebedeva, Varvara Shmykova, Juris Žagars, Anatoliy Beliy, Vladimir Friedman, Anastasia Mischenko, Yuriy Zavalnyouk
Running Time: 141 minutes
The original myth of the Minotaur is well-known in popular culture and is even referenced again within the structure of the film Minotaur. It features a being half-man and half-bull imprisoned in a labyrinth for bringing shame to his parents. Since it feeds exclusively on human flesh, for geopolitical reasons the Athenians sent young people to be devoured by the monster in Crete every nine years.
Adapting this story to present-day Russia is an intense task that demands a highly critical view of the country’s situation, something possible for Andrey Zvyagintsev only because he is currently considered a traitor to the homeland living in exile. In his new film, he uses his already established cinematic style to place this metaphor both on a deeper level, of the country as this space that demands the sacrifice of young people, and on a private level, of the need to remain within the labyrinth and feed the monster in order not to lose the privileges that this life allows.
This is presented through the story of a couple, Gleb (Dmitriy Mazurov) and Galina (Iris Lebedeva), who live in Moscow in a very comfortable position even amidst the war because of Gleb’s work as the head of a transport company. However, Gleb receives an order from the military to deliver a list of fourteen employees to be enlisted, precisely because he maintains good relations with the government, which allows him to choose people who wouldn’t worsen his business situation. At the same time, he deals with a personal crisis as he believes his wife is having an extramarital affair.
Through this, he manages to create a plot that focuses on the impunity of the Russian financial elite in exchange for their silence about events in the country. Mixing a domestic drama with the broader political drama, he also places a repetition of broader patterns in this individual sphere, showing how this cycle can repeat itself. Furthermore, he manages to show in the relationship between these parents and young Seryozha (Artemiy Spiridonov) how this kind of complicity ends up being passed on as a family value.
All of this is presented in a very specific style, which portrays Moscow as a gray and lifeless space, and uses specific framing to transform even the most open spaces into the labyrinth he wishes to replicate. The film uses straighter lines and precise angles to simulate this invisible space. Even the way the zoom is used in necessary scenes is with a slow and persistent approach, resonating with this idea of incessant pressure on the characters. There are only a few scenes that deviate from this pattern, which are specific scenes in which Galina is experiencing moments of happiness. There, a more dynamic camera and warmer-toned photography are used, precisely to place this moment in opposition to the rest of the film.
Added to this technical element is the excellent use of sound. In all the spaces there are televisions on, showing news that we imagine to be about the war. Even at the beginning of the film, there is a moment when Gleb sees a female employee watching a video of explosions. This is presented as a contrast to the absence of a soundtrack, implying an absence of a guide to the tone of the scenes. We only have the sounds of cars, breathing, dialogues, and advertisements as background noise. There is still an element of isolation in Seryozha through his headphones, with which he can simply alienate himself from the rest of the world.
Thus, technique and narrative help to construct a disturbing film about Russian reality, to which we have little access due to geographical distance. The director manages to convey his message about his country of origin precisely and once again draws the world’s attention to this disturbing situation.
Obrigada, Aline Guevara, pelo apoio! Se você quiser ver o seu nome nas próximas críticas, não esqueça que o financiamento coletivo segue aberto em https://www.kickante.com.br/financiamento-coletivo/ajude-o-no-sofa-com-gatos.




