Supergirl (Estados Unidos, 2026)
Título Original: Supergirl
Direção: Craig Gillespie
Roteiro: Ana Nogueira (baseado na HQ “Supergirl: Mulher do Amanhã”, de Tom King e Bilquis Evely)
Elenco principal: Milly Alcock, Eve Ridley, Matthias Schoenaerts, David Corenswet, David Krumholtz, Emily Piggford
Duração: 1h47min
Distribuição: Warner Bros. Pictures
Quando o assunto é DC Comics – ou Marvel Comics –, é difícil pensar em alguma grande história que não se apoie na trindade de personagens que funciona como pilar daquele universo. No caso da DC, temos Superman, Batman e Mulher-Maravilha como essa trinca principal, sendo que um deles é o maior símbolo do imaginário comum do que é um super-herói, o outro é provavelmente um dos personagens mais populares da cultura pop, enquanto a última é o maior ícone feminino dessas histórias que, por muito tempo, foram vistas de maneira reducionista como sendo “coisa de menino”. Assim é lógico pensar que ao tentar restabelecer o universo DC nos cinemas após a desastrosa tentativa anterior – que ficou conhecido como Snyderverso –, era lógico pensar que os produtores James Gunn e Peter Safran iriam seguir a cartilha óbvia.

Mas não foi bem assim. Eis que em um quase manifesto em defesa de um tom autoral – mesmo que ainda sob uma lógica de indústria –, James Gunn saiu na frente clamando que boas histórias e filmes com personalidade são a prioridade dessa nova DC. Nada do tom uníssono que é tão criticado na concorrência e tampouco um frankenstein mal-costurado que era a DC entre 2013 e 2023 – começando com Homem de Aço e encontrando um fim inevitável com Aquaman: O Reino Perdido –, mas a nova fase, iniciada por um excelente Superman dirigido pelo próprio Gunn, priorizaria as histórias que fizessem sentido ser contadas. E foi assim que Supergirl surge com o segundo filme desse novo cânon em busca de um universo DC sustentável (e lucrativo, claro).
A história que brilhou os olhos dos produtores é a aclamada Supergirl: Mulher do Amanhã, escrita por Tom King e que traz o casal de brasileiros Bilquis Evely e Mat Lopes no departamento artístico, respectivamente responsáveis pelos desenhos e pelas cores. Com um olhar maduro para Kara Zor-El (a Supergirl), a trama aqui flerta com um tom mais próximo de um faroeste no espaço do que de uma história de super-heróis convencional ao apresentar Ruthye, uma criança que busca de vingança após testemunhar a morte do pai, fazendo com que seu caminho se cruze com o da kryptoniana. As duas partem juntas em busca do vilão Krem, não apenas para realizar a vingança da garota, mas para garantir a sobrevivência do cachorro Krypto (sim, o supercão), envenenado por Krem logo nas primeiras páginas da minissérie.
Nos cinemas, a história ganha vida sob direção de Craig Gillespie (do excelente Eu, Tonya e da boa surpresa Cruella), que já provou mais de uma vez conseguir trabalhar com personagens femininas complexas e agora empresta seu estilo para apresentar uma Supergirl que passa longe de ser uma versão feminina de Clark Kent. A Kara Zor-El vivida por Milly Alcock é desbocada, ranzinza e passa longe de ser o mesmo poço de otimismo nerd que o primo vivido por David Corenswet, que retorna aqui em uma participação contida, mas marcante. Ao mesmo tempo, é difícil imaginar alguém passar pela experiência sem ser contagiado pelo carisma da atriz, que definitivamente desponta como a melhor coisa do longa.
O maior problema de Supergirl, afinal, não está no escopo da história ou na personagem em si, mas na crise de identidade da direção de Gillespie. Não há dúvidas que a escolha foi acertada quando vemos o desenvolvimento da personagem ou a maneira como o filme explora seus traumas e vulnerabilidades. Inclusive, são nesses momentos que a aventura diminui o ritmo para contextualizar mais detalhes sobre a origem de Kara, incluindo aí o que houve com o planeta natal da garota. Mas é difícil conseguir evitar comparar o filme com o que James Gunn fez em Superman. Aliás, é difícil não comparar com tudo que Gunn fez com o universo de super-heróis, principalmente com a trilogia Guardiões da Galáxia, já que o filme várias vezes convida o público a fazer essa comparação desnecessária e até injusta, visto que Gunn se prova muito mais diretor quando o assunto é sustentar a sensação de grandiosidade que o filme pede.
O espaço entre os dois fica ainda maior quando Gillespie se presta a criar momentos de ação seguindo o estilo que virou quase assinatura de Gunn. A música sobe e a porradaria desce e Gillespie arrisca um plano-sequência mais elaborado aqui e ali, mas a sensação é sempre de que estamos vendo uma versão mais sem sal de cenas maiores e mais marcantes de antes. Fica feio porque fica claro que a especialidade de Gillespie são os momentos mais intimistas, ganhando muita força quando a obra permanece como uma aventura contida. Quando Supergirl é um “reles” faroeste espacial, algo mais forte nos primeiros 30 minutos, ao menos se nota uma personalidade interessante no projeto, mas isso é algo que some completamente diante da tentativa de emular o que veio antes.
Nem tudo se perde e a razão disso é, novamente, Milly Alcock. Como uma kryptoniana digna, ela carrega o peso (desse) mundo nas costas sozinha, e impede que o filme seja algo realmente ruim. Na verdade, Supergirl não é mesmo um filme ruim, mas é definitivamente menos. Menos que o potencial demonstrado nos primeiros 30 minutos, menos do que uma história em quadrinhos aclamada poderia render, e menos do que a personagem e a atriz mereciam. É um filme apagado, do tipo que não é bom o suficiente para cravar que o futuro da DC está garantido, mas nem tão ruim que já dê para cravar outra tentativa frustrada de fundamentar um universo compartilhado. Tem seus momentos divertidos e é sempre maravilhoso ver um cachorro com super-poderes voando e causando confusão, mas termina deixando uma agridoce sensação de que voou baixo demais.




